Resenhas

O MÉTODO EM MARX - José Paulo Netto (2° parte da Primeira Aula)  19/12/2011

 PROF. JOSÉ PAULO NETTO

Este documento é o resultado das nossas observações acerca da segunda metade da primeira aula (Aula 2/2) proferida pelo professor José Paulo Netto na Universidade Federal de Pernambuco, expondo a temática do Método em Marx.

Sendo, então, a continuação da primeira das cinco aulas ministradas pelo professor, o texto transcrito representa o conteúdo abordado no segundo momento do dia e, com o intuito de acompanhar a divisão que os vídeos apresentam, optamos por manter esta cisão na organização do conteúdo transcrito. As duas primeiras horas, que formam a primeira metade desta vídeo-aula, estão disponíveis neste sítio, no arquivo intitulado Aula 1/2.

Por se tratar da continuidade de uma mesma exposição, lembramos que, no momento final do documento anterior, o professor estava tecendo observações sobre as características da produção literária de Marx, dizendo sobre a importância de Engels no processo de editoração e publicação das obras marxianas, chegando, mesmo, a considerá-lo, em dado momento, como um co-autor.

Assim como fizemos com a transcrição anterior, fracionamos o discurso do professor ao transcrevê-lo por opção organizativa para estudo, sem, contudo, alterar o conteúdo que foi proferido.






TÓPICOS PARA ANÁLISE DO TEXTO

● Ainda sobre a editoração das obras de Marx e Engels

● Diferença entre os conceitos Marxismo e Marxiano

● Os vários Marxismos: adequações às diferentes realidades

● Marx: teoria vinculada à revolução

● Contemporaneidade do pensamento marxiano

● Objeto da pesquisa de Marx: sociedade burguesa

● Crítica à metodologia atual das ciências sociais

● Deficiências de compreensão geradas pelas falhas de metodologia de estudo:
▪ Marx não era um determinista;
▪ Marx não renegou a dimensão cultural em suas análises;
▪ Não se pode dividir o pensamento marxiano em fatores departamentais.

● Definição de teoria em Marx

● O ideal metodológico em Marx

● Um teórico a serviço da revolução

● A busca da verdade como condição para o trabalho intelectual

● Crítica ao relativismo

● Prática política versus construção teórica

● Conhecimento: seu valor em si e sua utilidade como instrumento

● Validade da obra Marxiana: seu limite e sua universalidade

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CRIAÇÃO - Gore Vidal  27/09/2010

 VIDAL, Gore. Criação. - Rio de Janeiro: Record, 2002Nossa civilização ocidental erigiu-se sob uma herança grega tão intensa que, mesmo depois de vinte e cinco séculos sentimos a necessidade de revisitá-la para compormos uma compreensão de nós mesmos. E, como conseqüência de tal necessidade, muito se tem estudado e publicado com relação ao pensamento grego antigo. Do pouco que já pudemos ler, normalmente nos é apresentada uma concepção que, embora crítica, quase sempre nos aponta o lado favorável do legado grego à posteridade.

Em “Criação” (1981), Gore Vidal, 85, entre outros temas periféricos, apresenta-nos uma visão da cultura e da sociedade clássicas diferente daquela a que estamos acostumados. Para tanto, Vidal constrói uma personagem que nos conduzirá ao longo de toda a obra, confundindo a vida dela com os eventos políticos gregos, e com o diferencial de que nosso anfitrião é um persa e crítico feroz de tudo que seja helênico. Seu nome é Ciro Espítama e, como primeiro fator interessante, Vidal o introduz no romance como neto de Zoroastro, o profeta persa que vivera no século VII a.C., também conhecido por Zaratustra. Tal parentesco, dentro da trama, irá render-lhe acesso à corte persa, possibilitando o convívio com os quatro grandes reis: quando criança, conheceu Ciro e suas histórias sobre a expansão do Império; em sua juventude, serviu e admirou Dário; quando adolescente e jovem adulto, desfrutou da amizade de Xerxes; já na velhice, representou Artaxerxes junto aos atenienses, sendo seu embaixador.

O autor utiliza de outro laço de sangue para construir a narrativa e nos transporta para o século V a.C.: Ciro Espítama narra a história de sua vida, que resulta no próprio livro, a um sobrinho que tinha por conta de sua ascendência materna grega, sendo este ninguém menos que Demócrito de Abdera (460 – 370 a.C.), o filósofo pré-socrático entusiasta da teoria atômica. Após ouvir por mais de seis horas o discurso de “[...] um pretenso historiador [...]” chamado Heródoto de Halicarnasso (485? – 420 a.C) sobre o conflito “[...] a que os gregos costumam chamar de ‘Guerras Persas’ [...]”, Ciro, já velho e cego e, sobretudo, irritado pela versão que acabara de ouvir, inicia ao seu sobrinho, que atentamente toma nota, o relato da faceta persa dos acontecimentos aos quais chamou de “[...] as guerras gregas [...]”. (p. 15). E essa será a atividade construtora da leitura que nos é oferecida pelo romance: o sobrinho Demócrito anotando as memórias de um persa que, invariavelmente, afronta a versão grega sobre fatos históricos dos quais participou ou pode presenciar.

Além de podermos apreciar, pela versão oriental, a história político-militar que opôs gregos a persas, o tema condutor da obra e, consequentemente, da vida de Ciro Espítama é o desejo do protagonista de conhecer as hipóteses dadas por diversas culturas sobre a criação. Divulgador do pensamento monoteísta do Sábio Senhor zoroastriano, Ciro era “[...] um crente, claro. Mas não [...] um fanático [...]”, e sendo possuidor de mente aberta ao que lhe fosse externo, ele percorre uma boa parte do Oriente antigo a serviço dos reis persas, absorvendo, entre o trabalho de promover o comércio com os povos locais, a cultura que se lhe fosse apresentada pelas pessoas que ia conhecendo. (Cf. p. 56). Assim, Vidal, por meio de seu personagem principal, faz-nos conhecer os princípios básicos do Hinduísmo, quando da passagem de Ciro pelos reinos independentes que hoje compõem a Índia. De forma análoga, o autor nos apresenta as filosofias de vida budista e taoísta, ao colocar o neto de Zoroastro em contato com os povos do Cathai, atual China. Interessante, também, é ler as linhas que descrevem o encontro, e o relacionamento que se sucede a ele, entre Ciro e o mestre Confúcio (551 a.C – 479 a.C), além dos fragmentos de ideias de outros pensadores relevantes da época.

Em determinado momento da narrativa, abordando o assunto da criação, Demócrito chega a perguntar ao seu tio “[...] qual das teorias foi a mais curiosa [...]” por ele ouvida. Como resposta, Ciro afirma-lhe uma que dizia “[...] que nunca houve criação, que nós não existimos, que tudo isto é um sonho [...]”, sendo o sonhador “[...] aquele que desperta e lembra [...]”. (p. 212)

O livro mostra-nos, também, como um olhar externo a uma dada cultura pode desvelar a arte da manutenção de privilégios tidos como condição natural, por quem nela está imerso, como nos parágrafos em que o jovem protagonista, na companhia do então príncipe Xerxes, visita os templos da Babilônia, que à época era uma satrapia do Império, e desmascara a prática dos sacerdotes que, ao se fazerem passar por encarnações de deuses em rituais ditos sagrados, aproveitavam para desvirginar jovens nos templos em honra a estes, segundo Vidal. Xerxes, acompanhado por Ciro, curioso por se inteirar da cultura local, mas mantendo o olhar crítico do estrangeiro, afirma ao administrador do templo de Bel-Marduk, em meio aos olhares perplexos dos guardiões, que naquela noite iria “[...] realizar essa tarefa por um de seus sacerdotes [...]”. Quando o administrador lhe nega o direito dizendo que ele não era um sacerdote, que somente por um sacerdote o deus poderia se fazer presente, o príncipe persa afirma que “[...] posso fazer de conta que sou Bel-Marduk tão bem quanto qualquer sacerdote [...]” e que, ao se considerar que ele era o herdeiro do reino, o costume facultaria uma exceção. (Cf. p. 137). Evidenciam-se nesta passagem, a força dos costumes, mas, também, a sua flexibilidade perante os interesses do poder político ao qual servem.

Aproveitando-se da grande extensão territorial na qual se constituía o Império Persa no século V a.C., e, por conseqüência, da diversidade cultural que ele mantinha sobre seu julgo, Gore Vidal nos apresenta um pouco dos costumes dos vários povos que deviam obediência aos reis persas. Ao exemplo da personagem principal, que compara tudo o que lhe seja novo a sua crença interior, Criação nos inspira à prática deste olhar crítico, sugerindo-nos que tenhamos a nós mesmos por objeto primeiro desta análise singular. Visitar as quase oitocentas páginas que compõem a obra, buscando a cada instante distinguir os fatos históricos dos excessos poéticos presentes na narrativa é um exercício tão intelectualmente profícuo quanto prazeroso.
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AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE - JOSÉ SARAMAGO  29/01/2010

 AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE - JOSÉ SARAMAGO - RESENHA Esta resenha foi publicada primeiramente no site do Instituto Hypnos.



É comum encontrarmos relatos na História da Humanidade que denotam a angústia das pessoas face à morte ou à certeza de que dela participarão. Talvez, por conta da apreensão que o término da existência humana nos impõe, nos moldes como a conhecemos fisicamente, é que a morte tenha sido tratada como um mal, algo cuja própria idéia devesse ser combatida e, não raramente, o desejo de uma continuidade ininterrupta da condição de estarmos vivos, ou seja, o anseio pela vida eterna terrena tenha sido manifestado.

Em “As Intermitências da Morte”, Saramago nos carrega para um determinado país, onde, no primeiro minuto do dia de Ano Novo, os moradores do lugar percebem que a morte não havia se manifestado como de costume, que as pessoas simplesmente deixaram de morrer. Um representante de uma agência de enterros expressava sua insatisfação: “[...] pelos vistos ninguém parece estar disposto a morrer no primeiro dia do ano [...]”. (p. 13).

Na medida em que a percepção se confirmava na propagação do boato, as pessoas daquele país sentiam-se privilegiadas, enchendo-se de um fervor patriótico justificado em sua escolha para não mais perecerem. Porém, com a experiência e a reflexão sobre ela permitidas pelo tempo que passava e pelos problemas que começavam a se apresentar, o que num primeiro instante fora entusiasmo pintado nas cores da bandeira, transformou-se em condenação à vivência de situações cujos malefícios se incrementavam na proporção em que não mais se morria: até mesmo o principal dito em um ano que se inicia estampado como manchete em um dos jornais, “[...] Ano Novo, Vida Nova [...]”, passou a soar ironicamente perante o desespero que se alastrava em meio aos órgãos públicos, às empresas privadas e à população em geral. (Cf. p. 23).

O Governo não sabia como lidar com uma situação que lhe apresentava um problema inédito sem correr o risco de perder a popularidade como efeito de suas medidas. Empresas cujos ramos de atividade diziam respeito à morte, como funerárias e seguradoras, viram-se à beira da falência e forçaram o governo a se posicionar favoravelmente a uma solução paliativa: “[...] que o governo venha a tornar obrigatório o enterramento ou a incineração de todos os animais domésticos que venham a defuntar [...]”. (p. 26). A Igreja se viu ameaçada, uma vez que sem que as pessoas morressem não poderiam ressuscitar para a vida eterna, e sem oferecer o seu principal produto – a ressurreição – a instituição não teria sustentação lógica: “[...] as religiões, todas elas, por mais voltas que lhe dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte [...]”. (p. 36).

A ausência da morte entre os homens não teria trazido apenas o caos econômico para o referido país, a moralidade de sua população foi posta à prova quando, tomadas de sentimentos contraditórios, as pessoas que inicialmente comemoravam a permanência de parentes queridos consigo, passaram a desejar alguma maneira de se livrarem dos transtornos provocados por um moribundo permanente. Casas de repouso ficaram cheias: tratava-se da terceirização da responsabilidade no apogeu de sua intensidade!

E como em todo contexto social no qual as soluções não são apresentadas por quem tem o dever, elas emanaram da organização daqueles que viram no problema a possibilidade de ganhos com sua resolução prática, mesmo que ao custo do regresso moral: surgia a máphia, que se autografava com ph “[...] para nos distinguirmos da outra, da clássica [...]”, e gerenciava o serviço de fazer morrer fora das fronteiras da nação, já que, benção ou maldição, o evento sobrenatural só se dava dentro dos limites geográficos do país. (Cf. p. 50). Da pressão exercida pelas nações limítrofes, insatisfeitas com o uso arbitrário que se fazia do seu território como sepulturas, unida à demagogia dos estadistas que prometeram aos governos vizinhos resolver a questão, mas não cogitavam tomar qualquer medida antipopular, ganhavam força as ações “maphiosas” que se fundamentavam em um acordo secreto com os dirigentes locais que as fingiam combater, livrando-se, perante os vizinhos, da acusação de culpa sobre o que continuava a ocorrer.

Enquanto no mundo dos vivos os vícios das relações humanas emergiam com força proporcional à gravidade do problema vivenciado, a figura da morte nos é oferecida por Saramago como personagem a protagonizar toda a segunda metade da obra. Após sete meses de protesto, satisfeita com os resultados obtidos, resolveu a morte voltar à normalidade de suas ações, implementando, por novidade, o envio de uma carta que notificava a pessoa, sete dias antes, da data de sua morte.

Assim, encontramos a morte na fiel companhia de sua gadanha executando o trabalho de envelopar os comunicados e os encaminhar aos destinatários, até que “[...] aconteceu que uma carta cor violeta foi devolvida à procedência [...]”, reaparecendo sobre a escrivaninha de onde a morte a enviara. (Cf. p. 135). Após outras duas tentativas sem sucesso de envio, de verificar em seus arquivos que as informações sobre o destinatário eram procedentes e de consultar os manuais que, seguindo suas orientações, ela jamais havia falhado até então, a morte incumbe à gadanha das postagens das fúnebres correspondências futuras, para, assumindo uma imagem de mulher, conhecer aquele que, inexplicavelmente, fugia-lhe ao comando.

Deparou-se, então, a morte com um músico violoncelista de cinquenta anos “[...] um idiota inocente que continua a viver sem que lhe passe pela cabeça que já deveria estar morto [...]”, que vivia em um apartamento com um cão de estimação e se apresentava em concerto nos teatros da cidade. (Cf. p. 147). Após contemplar o sono do violoncelista na tranqüilidade do seu lar, sem se fazer notar, a morte o contata em duas oportunidades futuras, ambas ao término de apresentações musicais, onde, enigmaticamente, troca algumas palavras com o homem tentando compreendê-lo, saber ao certo de quem se trata, que poderes ele poderia ter para lhe escapar à vontade irrevogável, mas, sobretudo, tencionando entregar-lhe a carta. O homem, que já se encontrava enamorado da bela figura feminina assumida pela morte e estava tão fascinado quanto confuso, acabou por encantar seu algoz com sua arte ao tocar para ele em sua casa. Após momentos de maior intimidade, arrependida, a morte queima a carta que portava, voltando aos braços do músico para neles adormecer: “[...] No dia seguinte ninguém morreu [...]”. (p. 207).

Assim como Erasmo de Rotterdam (1466 - 1536), em seu “Elogio à Loucura”, publicado no longínquo ano de 1509, faz-nos perceber o valor agregado ao estágio de suspensão momentânea de razão, sem o qual não suportaríamos muito do que nos rodeia, José Saramago, em “As Intermitências da Morte”, faz justiça ao inevitável, expondo a necessidade do homem de ter sua vida findada em um determinado momento, sob o risco de sofrer todas as consequências de uma existência que teria prolongados os males que lhe são inerentes, além da impossibilidade prática da perpetuação da vida na Terra. Utilizando o recurso de não nomear pessoas nem lugares, o texto de Saramago ganha um ar de atemporalidade e universalidade, características que, em sendo a morte o tema principal, instrumentalizam-nos a reflexão.

Seria a Arte capaz de imortalizar, interrompendo a ação da Morte?

SARAMAGO, José. “As Intermitências da Morte”. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

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Parte dos comentários que aqui seguem a resenha foi postada originalmente no site do Instituto Hypnos. Para conhecer o Hypnos e ver a resenha publicada na página do Instituto, acesse:

http://www.institutohypnos.org.br/v4/index.php/2010/01/as-intermitencias-da-morte-jose-saramago/


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HISTÓRIA DA FILOSOFIA ANTIGA: Prefácio e Introdução do Tomo I. Giovanni Reale  04/12/2009

 REALE. Giovanni. História da Filosofia.- São Paulo: Loyola, 2003. Tomo IEm concordância com os objetivos deste espaço, correspondendo à publicação de qualquer meio que venha a divulgar o conhecimento e incentivar a reflexão, por menor e menos significativo que o seja, disponibilizo abaixo algumas observações por mim redigidas a respeito do que trazem o prefácio e a introdução do primeiro volume da obra “História da Filosofia Antiga”, do professor e filósofo italiano Giovanni Reale (1931).

Reale é uma das referência do entendimento e interpretação do pensamento grego antigo, sendo especialista nos clássicos, confessou sua predileção por Platão, Plotino e Agostinho.

A obra é composta por cinco volumes, expressa por mais de duas mil páginas, o que deixa este esboço de resenha como uma dimensão ainda menor do que já possuía, se considerarmos sê-lo apenas o conjunto simples das minhas observações, concebidas no ato do estudo desta pequena parcela do primeiro tomo, ainda na época da faculdade.

Porém, ao deixar de lado sua importância relativa e levar em consideração a absoluta valia implícita em suas poucas linhas, e ainda a esperança de que pessoas amantes da Filosofia e de sua história viessem a se interessar pelo restante da obra, resolvi tirar o rascunho do amarelado caderno de estudos e transpô-lo para este sítio na forma de texto, desejando que tenha alguma serventia a quem por “ventura” vier a visitá-lo com o já sugerido interesse de “repensar o óbvio”.

Neste fragmento de sua obra, Giovanni Reale se dedica a demonstrar que a Filosofia é uma invenção do gênio grego, e não, como pretendem alguns, uma derivação de qualquer saber oriental. Desenvolve, ainda, uma reflexão sobre a importância da prática filosófica frente ao mitológico poder pelo qual, hoje, foram envolvidas a ciência e a política, evidenciando o cuidado para não se ir da Filosofia à Ideologia, ou, mesmo, para não se elevar algum saber científico, limitado por ser fragmentado e, portanto, “parte do todo” à condição holística de “todo”. Outra preocupação do autor é revelar os motivos culturais, históricos e políticos que propiciaram o surgimento da Filosofia nas colônias gregas do Oriente e do Ocidente.

Na elaboração do texto, mantive-me fiel a termos como, por exemplo, “desmitizar”, “cientismo” e “praxismo”, que, por mais que fujam do nosso vocabulário cotidiano e, talvez, da correta grafia no nosso idioma, dentro do contexto, têm mais êxito para expressar o pensamento original do autor, conforme a tradução do italiano para o português realizada por Marcelo Pirene.

Ao término de cada parágrafo, consta referência à página da qual fora extraída a observação, com o intuito de possibilitar a elucidação de qualquer dúvida ou, ainda, para simples conferência do que foi por mim relatado.

Para ter acesso ao pequeno documento, basta clicar no botão download, logo abaixo.



REALE_historia_da_filosofia_antiga_ampliado_em_06_12_2009.docx arquivo para download




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UTOPIA - THOMAS MORE  14/12/2008

 THOMAS MORE (1478-1535)Utopia é considerada por muitos críticos como um clássico do pensamento humanista escrito por um homem que, por força de seu comportamento coerente, foi sentenciado a morte.

Como sabemos, Thomas More (1478-1535), ou Morus (na versão latina de seu nome), foi condenado por ter-se recusado a assistir à missa que coroava Ana Bolena (1500-1536) como rainha da Inglaterra, sem, desta forma, prestar-lhe juramento. Com efeito, não era Bolena ou o próprio soberano anglo, Henrique VIII (1491-1547), que ele negava com tal gesto, mas a nova religião. Na verdade, um rearranjo na cúpula do poder da Igreja Católica em território britânico: do comando, saia o Papa e entrava o Rei.

Porém, apesar de que tal fato já seria suficiente para garantir ao monge inglês um lugar na História, a porta para adentrar a dimensão da imortalidade fora a obra escrita em 1516, intitulada Utopia.

Imerso no contexto renascentista, tendo o pensamento humanista como escafandro, More redige um texto no qual efetua contundente crítica à organização sócio-econômica da Europa do século XVI. Para tanto, ter-se-ia baseado, segundo nos afirma Eduardo Bueno (1958-), no capítulo dedicado ao estudo das viagens de Américo Vespúcio (1454-1512) e o Batismo da América, em seu livro "Náufragos, Traficantes e Degredados: as Primeiras Expedições ao Brasil" (Objetiva,1998), em uma carta enviada pelo navegador italiano a seu compatriota Piero Soderini (1450-1522).
Esta carta, conhecida por Lettera (1504), mas cujo título original é "Lettera di Amerigo Vespucci delle isole nuovamente trovate in quattro suoi viaggi", fora, segundo Bueno e as fontes que cita em sua obra, um misto de farsa e exagero, que algum editor, com ou sem a anuência do aventureiro florentino, publicou com o intuito de obter alto lucro com um assunto que estava em voga à época.

Fato é que a versão em latim da tal carta, sob o título de "Quatuor Americi Vespucci Navegationes" (1510) e editada por um grupo de eruditos franceses que compunham um círculo de estudos denominado Ginásio Vosgenses, chegou às mãos de Morus, e baseou a concepção geográfica a ilha de Utopia nos relatos controversos de Vespúcio.

Em Utopia, More constrói um encontro entre ele e sua personagem principal: um navegador português que abandonara tudo o que possuíra para fazer parte das expedições comandadas por Américo Vespúcio nas três últimas das supostas quatro viagens realizadas pelo navegante (hoje sabe-se que a primeira das quatro, a de 1497, não ocorreu de verdade).
Durante a última delas, quando Vespúcio instalou uma feitoria na atual região fluminense de Cabo Frio, deixando vinte e quatro homens nela, Rafael Hitlodeu, teria sido um deles. Segundo Bueno, a sociedade justa e bem organizada descrita na obra de Morus poderia ter por base geográfica a ilha de Fernando de Noronha, visitada por Vespúcio durante suas viagens. Em nenhum momento Morus indica com exatidão a localização da ilha, apesar de comentá-la em seus pormenores.

Ao descrever a sociedade que se formara em Utopia para o próprio More e para um amigo em comum de nome Pedro Gil, responsável, no texto, por apresentar criador e criatura, Hitlodeu divide sua narrativa em diversos aspectos sociais como, por exemplo, o trabalho realizado pelo povo, o trabalho desenvolvido pelos magistrados, a existência de escravos – a incoerência de uma sociedade justa portadora de escravos busca justificativa no não cumprimento das regras por parte de alguns -, a formação do povo, seus hábitos cotidianos, entre outros.

Além da própria existência da escravidão em uma sociedade supostamente igualitária, chama-nos a atenção a maneira como o povo utopiano lidava com a riqueza, em especial, com o ouro, que à época era o fator determinante do sucesso econômico de uma nação.
A guerra a outras nações também era feita, mas Hitlodeu explica em quais circunstâncias e que, ao ocorrer, desenvolvia-se à base de mercenários para evitar o derramamento de sangue utopiano desnecessariamente.
O comércio exterior não visava a acumulação, mas, antes, colaborar com as nações vizinhas e amigas escoando seu excedente e disponibilizando o capital conseguido para o pagamento dos exércitos mercenários para se opor, pela força, a qualquer ofensa cometida por estrangeiros contra si própria ou contra seus aliados.
É interessante observar a relação que os utopianos travavam com o ouro e com as pedras preciosas: o ouro, que tinha menos valor do que o ferro, uma vez que sua utilidade prática também era menor, era destinado ao fabrico de utensílios dos quais o povo poderia facilmente abrir mão em caso de necessidade de troca do metal, como no caso do pagamento de mercenários por conta de guerra. Assim sendo, além de pinicos, os utopianos confeccionavam correntes e outros objetos que seriam usados por escravos como forma de identificá-los em sua condição.
Esta passagem do livro é bastante significativa no que respeita à criticidade dos valores seiscentistas europeus: enquanto no Velho Continente o ouro era usado por reis, levando-se em conta o que ele poderia representar por ser escasso, em Utopia, ele era destinado aos escravos, devido a sua baixa utilidade.


Logo abaixo, clicando no botão “download”, você encontrará um resumo mais bem elaborado da obra, com detalhes do que acima fora somente citado. Por meio de notas de rodapé, expresso algumas impressões sobre o texto.

Boa Leitura!

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O SENTIDO DA COLONIZAÇÃO (Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr) - Por FERNANDO NOVAIS  28/09/2008

 FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO - CAIO PRADO JR.Todos reconhecemos a importância do trabalho do historiador Caio Prado Júnior (1907-1990) em sua busca pela compreensão e construção da História do Brasil, por meio de sua prática de pesquisa e de seu engajamento político.
Por ter a Economia como base de seu trabalho, dentro da vertente historiográfica marxista, foi muitas vezes alvo de críticas de colegas que o acusavam de praticar um “economicismo” reducionista.

O texto que aqui disponibilizo (clique em download, logo abaixo) é formado pelo conjunto de minhas observações sobre a palestra, que tive a oportunidade de assistir e estudar, proferida pelo historiador Fernando Novais (1933 -), na qual ele analisa o primeiro capítulo do clássico livro de Caio Prado, Formação do Brasil Contemporâneo (1942), intitulado O Sentido Da Colonização.

Nela, que fora exibida pela Fundação Padre Anchieta dentro da Série Intérpretes do Brasil no Século XX, componente do programa Balanço do Século XX, Paradigmas para o Século XXI, Novais faz a defesa de Caio Prado no que respeita ao possível caráter economicista de sua obra, afirmando que são inerentes ao estudo empreendido pelo historiador marxista as dimensões cultural, social e política, além da econômica.

Novais dedica-se, também, à análise do que pode ser considerado um dos maiores erros praticados pelo historiador: o “anacronismo”.
Apoiando-se em Lucien Febvre (1878-1956), explica o conceito além de indicar caminhos para se evitá-lo. Citando Michel Foucault (1923-1984), apresenta a teoria dos recortes históricos (lógico, cronológico e espacial), cujo emprego, na ordem correta, faz-se necessário ao estudioso que pretenda driblar as armadilhas do anacronismo.
Fala, entre outros, sobre a necessidade inerente a todas as Nações de construir um Passado glorioso que a legitime no Presente e do erro que se pratica na construção desta “História Nacional” quando se inverte a ordem existente na teoria dos recortes.
Levanta questão referente à viagem do “Descobrimento” e à “Carta de Batismo” redigida por Caminha: Como poderia Cabral ter “descoberto” e Caminha “batizado” algo que ainda não existia – o Brasil?
Afirma colocar-se em lado contrário à prática que diz estar ocorrendo no meio acadêmico brasileiro onde os grandes autores são lidos apenas para que possam ser objetos de críticas.

Enfim, Fernando Novais qualifica Caio Prado Júnior como um daqueles autores que devem ser lidos de forma diferenciada devido à qualidade e profundidade de seus texto. Eu, modestamente, espero que estas poucas linhas dedicadas ao assunto possam vir, de alguma maneira, a incentivar o gosto pelo estudo da História de nosso país, além de aguçar o ânimo de quem lhes dedique algum tempo para a leitura da obra original de Caio Prado; tão repleta de significados quando nos dispomos a refletir sobre nossa nação.

Ótima Leitura!
NOVAIS_Caio_Prado_e_o_sentido_da_colonizacao.doc arquivo para download




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A REVOLUÇÃO DE 30 - Boris Fausto  10/09/2008

 FAUSTO, Boris. A revolução de 30: historiografia e história. - São Paulo: Cia das Letras, 1997O documento disponível abaixo para download é um conjunto de observações feito por mim que tem o objetivo de expor o pensamento do historiador Boris Fausto, sobre os fatos, seus porquês e conseqüências, ocorridos naquele episódio histórico que ficou conhecido por Revolução de 30.

Como é sabido, não há consenso entre os estudiosos do assunto sobre o emprego do termo “revolução” para tratar do Golpe de Estado promovido pelas oligarquias de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul.
Mineiros, contrariados pelo “desrespeito” paulista ao acordo conhecido como Política Café com Leite, buscaram o apoio dos gaúchos e com estes depuseram Whasington Luís (1869-1957), em 24 de Outubro, antes mesmo da posse do novo presidente eleito, Júlio Prestes (1882-1946). A este fato se seguiu a ascensão de Getúlio Vargas (1882-1954) ao poder – momento que culminaria no início, em 1937, de um longo período ditatorial denominado Estado Novo, e que se estenderia até a redemocratização em 1945.

Com o intuito de comparar as impressões de Fausto com aquelas expressas pela Historiografia Brasileira de até 1970, organizei o texto, quando possível, narrando primeiramente o que os estudiosos deste período afirmavam e, em seguida, os argumentos do professor Boris.

Preparei a “resenha” seguindo a ordem de capítulos e subcapítulos existente na obra, porém, tomei a liberdade de dividir estes últimos pelo tema ali abordado. Como vocês perceberão, ao término de cada parágrafo (ou conjunto deles) por mim redigido, encontra-se entre parênteses o número da página onde o assunto referido é tratado. Meu objetivo, com este cuidado, é que seja facilitada a consulta à obra original em caso de dúvidas, discordância ou, mesmo, se por ventura eu não me tenha feito entender a contento.

A obra aqui analisada, “A Revolução de 30: historiografia e história”, não tem caráter factual. Percebemos, pela leitura do livro, que Fausto parte do princípio de que o leitor conheça os fatos ocorridos, limitando-se a deles tratar. Portanto, antes de se dedicar à leitura da obra, ou mesmo deste modesto resumo, é recomendável a prévia interação com o que historicamente se sucedeu.

Espero que o texto aqui disponibilizado sirva, de alguma maneira, para a divulgação do estudo realizado pelo professor Boris Fausto sobre este importante episódio da História Nacional.

Boa leitura!
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REFLEXÕES SOBRE O SOCIALISMO - Maurício Tragtenberg  26/08/2008

 TRAGTENBERG, Maurício. Reflexões sobre o Socialismo.-São Paulo: Moderna, 1986Em Reflexões sobre o Socialismo (São Paulo: Editora Moderna, 1986), o sociólogo e professor gaúcho, Maurício Tragtenberg (1929-1998) aponta a opressão sofrida pelos trabalhadores, tanto pelo regime ocidental capitalista quanto pelos que se desenvolveram no Leste Europeu sob o título de Socialismo Real.

Após o término da leitura, a impressão mais forte que o livro me deixou foi a de que a utopia socialista, que muitos dizem ter sido construída e demolida no século XX, não existiu realmente – e, portanto, não estaríamos vivendo num mundo pós-utópico, como alguns preconizam.

Longe de concordar ou discordar com a tendência anarquista por ele apresentada na obra, gostei muito da maneira como o professor aponta alguns caminhos para que seja conseguida a desejável justiça no âmbito do trabalho e da produção. E ele o faz enumerando e explicando as causas que motivaram e as que sufocaram algumas tentativas de se atingir esta situação, tanto de um lado, quanto do outro do “Muro”.

O livro aborda, na perspectiva da autogestão trabalhadora, o papel dos Sindicatos e dos Partidos Políticos. Sobre os últimos, Tragtenberg expõe suas conclusões à luz da análise do pensamento desenvolvido e da prática política incentivada nas três Internacionais trabalhistas já realizadas. Reflete sobre o papel da Social Democracia e do Eurocomunismo na Europa Ocidental. Quanto aos primeiros, tece comentários negativos mas percebe boas exceções, como o Sindicato Solidariedade, na Polônia, e o Sindicato dos Trabalhadores Independentes, na extinta URSS.

O livro é apresentado como um paradidático, mas, conforme coloco ao término de minhas observações sobre o conteúdo, (disponíveis para download no arquivo abaixo), considero que a reflexão que brota das afirmações de Tragtenberg legitima o valor da obra, porém, a ressalva que faço fica por conta de seu uso com os alunos nas aulas de História.
Sem subestimar a capacidade de compreensão ou de pesquisa do que não entendem, e não deixando de lado o entendimento do desafio como motivador para o estudante, penso que o texto requer uma maturidade intelectual e um prévio conhecimento factual sobre os assuntos tratados que, devido à idade dos alunos em sala, eles ainda não possuem.

(Leia mais baixando o arquivo)
TRAGTENBERG_Reflexões_Socialismo.doc arquivo para download




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O MURO DE BERLIM: ALEMANHA PÁTRIA UNIDA - LILLI GRUBER e PAOLO BORELLA  25/08/2008

 O MURO DE BERLIM: ALEMANHA PÁTRIA UNIDA - LILLI GRUBER e PAOLO BORELLAImagine se a cidade na qual você vive fosse arbitrariamente dividida em duas partes. Que, para infelicidade sua, um bom número de seus familiares e amigos, além do seu local de trabalho, agora fossem inacessíveis a você. Que as janelas dos apartamentos que se localizassem defronte à suposta fronteira fossem, compulsoriamente, tapadas com tijolos para evitar qualquer possibilidade de comunicação com o outro lado. Imagine-se vivendo assim por vinte e oito anos...
E como seria sua reação se após quase três décadas nesta realidade, como ápice de um mês de protestos não usuais nesta cidade, e que nem cogitavam uma mudança tão drástica, essa barreira autoritária fosse removida? Como você portar-se-ia diante da possibilidade de rever pessoas que lhes foram arrancadas do convívio por quase trinta anos? Como administraria a experiência de, após sentir-se cativo por tão longo tempo, agora ter o direito de se locomover para além de um determinado ponto?


Algumas respostas para esta situação real, iniciada com a construção do Muro de Berlim pela República Democrática da Alemanha no contexto do conflito entre a URSS e os EUA, em 1961, e demolido em finais de 1989, são narradas por uma equipe de reportagem da RAI italiana. Com o intuito de cobrir as mudanças ocorridas no Leste Europeu após o advento da Perestroika soviética, a jornalista Lilli Gruber e seu colega Paolo Borella transitam pelo Checkpoint Charlie – uma das passagens monitoradas que ligam os dois lados da cidade de Berlim - colhendo relatos históricos sobre a “Revolução Pacífica de Outubro”, na qual a população da Alemanha Oriental, encorajada pelas palavras de Gorbachev que em recente visita sinalizara a necessidade de reformas, clamava por maior liberdade política.

Na década de oitenta, um grande número de cidadãos da RDA já havia fugido do país utilizando-se da fronteira austro-húngara e da embaixada da República Federal da Alemanha em Praga. A situação alcançava níveis críticos com o êxodo de trabalhadores especializados que deixavam sua pátria para trabalhar em subempregos no lado capitalista do antigo Reich.
O abalo econômico foi seguido pelo enfraquecimento do SED – o Partido Socialista Unificado da Alemanha – que fora formado, em 1946, pelo “aperto de mãos” entre o Partido Comunista Alemão e os Sociais Democratas.

Além de um panorama do regime de partido único, os autores trazem depoimentos de pessoas que corajosamente integravam os quadros da dissidência. A formação, pouco a pouco, de uma oposição à Frente Nacional - coligação de partidos e organizações que “tinham representatividade” no Parlamento, “guiados” pelo SED – fez surgir grupos dissidentes como o Neues Forum e o Despertar Democrático, além da reorganização da social democracia no novo Partido Social Democrata, o SDP.

O livro desvela o importante papel da Igreja Protestante alemã, que, baseada numa certa autonomia de que fora possuidora nestes anos de Estado Totalitário, cedia o espaço de seus templos para que fossem organizadas reuniões de grupos de oposição.

A obra é redigida como mescla de objetividade, expressa no relato de fatos, com a subjetividade contida nas opiniões pessoais dos jornalistas, e se apresenta no formato de um diário, iniciado em 6 de Outubro tendo como desfecho o dia 22 de Dezembro; tudo coroado por “Post Scriptum” que realiza, na medida em que a proximidade temporal com os episódios permite, um balanço dos dois meses de uma relativa e, até certo ponto, inesperada abertura política. Nele, dúvidas com relação a uma possível reunificação – que hoje sabemos ter ocorrido – e ao direcionamento da economia Oriental são também apresentadas.

Ao conseguirmos nos desvencilhar do olhar Ocidental carregado de valores próprios, chega a ser comovente a leitura dos relatos de como os berlinenses do leste se sentiam na noite em que foi declarada, de forma atabalhoada pelo secretário Schabowisk, a abertura do Muro. Pessoas formaram filas imensas para poderem atravessar a barreira de tijolos e, sem saberem muito o que esperar, perambularam festejando pelas avenidas do lado Federal. A maneira como foram recepcionados pelos “irmãos ricos” e a quantia de cem marcos, a eles dada como “boas vindas”, também são contadas pelos autores que ali se encontravam.

Os problemas imediatos provocados pela junção da prática comercial entre leste e oeste com um câmbio desequilibrado - no qual 1 marco ocidental, que valia 8 vezes a moeda do Oriente, passou a valer por 20 – são demonstrados de maneira bastante lúcida. Entre outros, pessoas compravam alimentos e outros bens de consumo que tinham valores baixos porque eram subvencionados pelo governo da RDA e os revendiam no lado Ocidental tendo o lucro como objetivo. A velha, ultrapassada e patética voz dos grupos de extrema direita, clamando um nacionalismo calcado em xenofobia étnico-racial e perseguições a grupos minoritários, fez-se ouvir novamente, lamentavelmente, mostrando que certo tipo de pessoas não aprende nem mesmo com a dor e o sofrimento de experiências passadas.

Para aqueles que não estão suficientemente familiarizados com a recente História alemã, sobretudo acerca da República Democrática e seu contexto político, aconselho que iniciem a leitura da obra pelo apêndice que os autores oferecem no final do livro. Sob o título “1949 – 1989: A Parábola da República Democrática Alemã”, o leitor encontrará subsídios factuais para a compreensão do que ocorrera até o início das reivindicações que eclodiram em Outubro de 1989, culminando com a abertura do Muro no dia 9 de Novembro do mesmo ano.

O desfecho da história em que as “duas Alemanhas” tornam-se novamente uma, sob os olhares atentos de franceses e ingleses, e o poderio econômico germânico que tal acontecimento engendra, todos conhecemos. Porém, confesso que fui agradavelmente surpreendido pelos detalhes do processo que culminaram na queda do “Muro da Vergonha”, e, por esse motivo, deixo aqui a sugestão de leitura para aqueles que gostam da temática da Guerra Fria e de suas implicações.

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VENTURA_Muro_de_Berlim_2.doc arquivo para download




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AGOSTINHO E A CIDADE DE DEUS - Moacyr Novaes  05/08/2008

 Santo Agostinho (354 - 431)Em palestra proferida para a série Humanidades, veiculada na Tevê Cultura em 2005, o professor de Filosofia Patrística e Medieval da Universidade de São Paulo, Moacyr Novaes, aborda o pensamento de Santo Agostinho, analisando a percepção deste sobre a Alma e sua relação com o Corpo na totalidade que compõe o Ser Humano, dentro da obra Cidade de Deus.

Para tanto, ele compara o pensamento agostiniano ao Platonismo, fazendo ambos dialogarem com o Maniqueísmo acerca do suposto conflito existente entre Corpo e Alma.

Seria o Corpo, para Agostinho, um cárcere para a Alma?

Deveríamos abrir mão de tudo que mantivesse relação com a dimensão corpórea da existência com o objetivo de nos purificarmos?

Analisando os conceitos de “forma” e “matéria”, Novais caracteriza Corpo e Alma, além de expor claramente as concepções agostinianas sobre o Ato Criador de Deus, afirmando que o regresso da alma ao Criador seria a somatória de duas condições.

Levando-se em consideração que muito do que se acredita hoje no Ocidente Cristão, sendo-se ou não religioso, nasce com Platão e chega até nós via Agostinho, disponibilizo abaixo minhas observações sobre a enriquecedora palestra do filósofo Moacyr Novaes.

Boa leitura!
NOVAES_Agostinho_e_a_Cidade_de_Deus.doc arquivo para download




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TRISTEZA - Marcia Tiburi  18/07/2008

 O Anjo Melancólico - Gravura de Albrecht Dürer[...] Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu [...];

[...] Parece cocaína, mas é só tristeza [...];

[...] Eu nem sei porque me sinto assim, veio de repente um anjo triste perto de mim [...].


Muitos foram aqueles que, assim como Chico Buarque de Holanda ou Renato Russo, expressaram poeticamente a vivência de momentos não agradáveis. Mas esta tal tristeza, por tantos cantada, este sentimento que por vezes nos tira o colorido que acreditamos ser componente fundamental da vida, seria algo intermitente, de ocorrência esporádica, a qual todos estamos sujeitos mas que dela podemos nos livrar? Ou seria uma condição permanente de existência, da qual por vezes nos tornamos cientes e escrevemos belas canções, que se justificaria diante de uma vida repleta de mazelas, que perde qualquer sentido em face de uma finitude certeira que só nos permite cogitar sua prolongação no pós-morte?

Sem ser possuidor de respostas para tais indagações, porém não indiferente a elas, estudei e transcrevi aqui a palestra proferida pela Professora Doutora em Filosofia Marcia Tiburi, na qual ela aborda a temática da tristeza em um contexto histórico, analisando o que diziam sobre ela os vários estudiosos que se sucederam na construção do Pensamento Ocidental.
Com muita lucidez e competência Márcia decompõe a tristeza em três dimensões que lhe seriam intrínsecas, diferenciando-as: a depressão, o luto e a melancolia.

Se ficar triste nos parece uma péssima situação, buscar uma compreensão filosófica das possibilidades que nos seriam facultadas nesta condição, ajuda-nos a lidar melhor com ela.
O arquivo, abaixo disponível, trás minhas impressões sobre a belíssima palestra da professora Marcia Tiburi.

Boa leitura!







MARCIA_TIBURI_Tristeza.doc arquivo para download




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O MÉTODO EM MARX - José Paulo Netto  15/07/2008

 PROFESSOR JOSÉ PAULO NETTOFoi de forma quase involuntária que chegou às minhas mãos uma produção em vídeo que continha um conjunto de aulas-palestras proferidas pelo professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, José Paulo Netto, em um curso sobre Karl Marx, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, entre 26 e 30 de Agosto de 2002.

Estávamos, eu e o professor Roberto dos Santos, na subsede da Apeoesp em Suzano quando, analisando o material por ela disponibilizado aos professores, encontramos as referidas gravações. Como nos interessamos pelo autor, emprestamos os vídeos para análise.

Rapidamente, percebemos sua importância, fundamentada na profundidade e na extrema competência com as quais o professor José Paulo tratava da vida, do método e do objeto de estudo de Marx, além da profícua exposição de sua produção intelectual.

Considerando o valor do que ali era discutido, iniciei um projeto que visa a divulgação de seu conteúdo por meio das transcrições daquelas aulas. Tal projeto ainda encontra-se em curso devido ao enorme tempo que me tomam assistir às aulas, gravá-las e transcrevê-las, além de, posteriormente, tentar edificar um texto que seja capaz de manter-se fiel às palavras do professor, mas que também possua algumas informações complementares, como o período de vida dos citados, as datas de publicação das obras indicadas, etc.

Neste primeiro momento, disponibilizo a quem se interessa pelo Pensamento Marxiano, o resultado da análise e transcrição da primeira metade da primeira aula ministrada pelo professor. O conjunto das palestras é composto por cinco aulas divididas em 10 vídeos. Para acompanharmos tal divisão, também aqui repartirei o conteúdo desta maneira, ficando então, para a próxima publicação a segunda metade da primeira aula.

Saliento, ainda, que este material fora enviado por e-mail ao professor José Paulo para que ele autorize sua publicação. Acreditando que tal ocorrerá, por se tratar, como disse, apenas de divulgação, mantenho o arquivo abaixo para download, e, em caso contrário, cancelarei sua divulgação.

Desejo uma ótima leitura e uma fecunda reflexão.

FOTO: Autoria de Marco Fernandes, dezembro de 2003, para um entrevista concedida ao jornal da UFRJ
NETTO_Metodo_em_Marx_ Aula1_3.doc arquivo para download




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