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SIGNO DA MODERNIDADE: O DESRESPEITO CHEGA VIA CABO  19/12/2011

 SENTINDO-SE UM PALHAÇONo final deste ano, ao mudar de residência, vi-me diante de uma necessidade e de uma possibilidade: precisava de nova linha de telefone com serviços de internet e tinha a oportunidade de me livrar de uma relação desgastada com a Telefônica, empresa do ramo de telecomunicações que, aproveitando-se da antiga falta de concorrência, não se esforçava a contento para resolver problemas que ela mesma criava a seus clientes.

Eis que, diante desta combinação promissora, necessidade-possibilidade, iniciei pesquisa sobre qual serviço de telefonia e internet contratar. Levando em consideração o custo/benefício, mas não deixando em segundo plano o sonho de não mais ter que passar por dissabores dentro da desagradável relação com a empresa espanhola, dei preferência à empresa NET.

Telefone, banda larga cinco vezes mais veloz do que a da concorrente e ainda sinal de televisão por um valor relativamente razoável: contratei o serviço.

Quando do agendamento da data para a realização da instalação, a funcionária do Call Center me informou que não seria possível determinarmos um horário exato para que eu recebesse o técnico, que deveria ficar de prontidão durante toda a manhã ou ao longo da tarde, sendo este, diante do impasse, o período por mim escolhido.

Deixei de trabalhar naquela tarde e preparei meu espírito para aguardar do meio-dia até às dezoito horas, conforme orientação recebida. Quando o técnico chegou, analisou a rede externa e me informou, sem nenhum constrangimento, que não seria possível a realização da instalação porque um tal “distribuidor dos sinais”, chamado por ele de TAP, estava com sua capacidade esgotada, não sendo possível adicionar mais um cliente.

Mesmo com algumas indagações sendo geradas internamente, do tipo que se pergunta como alguém poderia vender aquilo que não poderia prontamente entregar, esforcei-me para entender o portador da má notícia como um sujeito isento de culpa, esbocei um sorriso amarelado pela tarde de trabalho por mim desperdiçada e fiquei com a orientação de que ele solicitaria os reparos necessários para a efetivação da instalação.

No dia seguinte, recebo o telefonema de outra pessoa do Call Center, dizendo que o referido reparo seria realizado entre terça e quarta da semana seguinte e propondo novo agendamento da instalação para a quinta, com o qual eu concordei.

Na noite da véspera, novo telefonema confirmando a instalação, à qual novamente assenti.

Após faltar mais uma vez ao trabalho, aguardar de novo desde a hora do almoço até quinze minutos para as dezoito horas, chegou o técnico que, ao visualizar o poste, comunicou-me que o reparo necessário não havia sido feito, que o tal “distribuidor” não havia sido instalado.

O esforço para não tratar mal o rapaz que se punha pateticamente diante de mim era proporcional ao sentimento de nojo que passava a nutrir pela empresa que, irresponsavelmente, fazia me sentir um verdadeiro palhaço.

Liguei na “Central de Relacionamento dos Palhaços”, quero dizer, “Clientes”, onde, confesso, me manifestei com o tom de voz alterado e, quase sem acreditar, ouvi a atendente me pedir “respeito” para com ela. A empresa que protagonizara o que relatei acima me pedia “respeito”!

Nunca pensei que sentiria saudade da Telefônica. Imerso neste sentimento, pedi para formalizar uma queixa e a atendente “desrespeitada” me passou o telefone de um setor nomeado por “Ouvidoria da NET”. Tomei ciência que falava com o Rio Grande do Sul, que alguém há mais de três mil quilômetros da minha casa é quem iria resolver um problema que estava defronte à minha janela, no alto de um poste. Efetuei a queixa tentando ser mais “educado” do que da vez anterior; repeti a história pela quarta vez e recebi a promessa de que eles, da Ouvidoria, resolveriam “pessoalmente” o meu problema (mesmo estando em outro estado).

Para minha surpresa, na manhã da sexta, enquanto trabalhava, recebi o telefonema do “Call Center” da empresa querendo, pasmem, “agendar a instalação”. Quando, muito mal humorado, informei à coitada com quem falava que o tal distribuidor ainda não havia sido instalado, ela tentou me convencer do contrário, alegando que no “sistema” a informação que ela tinha era outra. Quando perguntei se ela me sugeriria perder mais uma tarde de trabalho por conta da incompetência da empresa da qual ela fazia parte, ela, coerentemente, dentro do padrão de atendimento até então oferecido, desligou o telefone na minha cara.

Na semana seguinte, pude perceber movimentação de pessoas da empresa realizando o serviço que era necessário para que entregassem o que me haviam vendido havia quase um mês e, no dia posterior, instalaram o telefone e a internet.

O pior de tudo, o que aumentava a sensação de desrespeito e impotência era, durante todo o processo acima relatado, presenciar os comerciais de televisão anunciando a empresa e os serviços como se fossem a melhor alternativa do mercado.

O atendimento da empresa NET conseguiu aquilo que acreditava ser impossível: fazer-me pensar que a Telefônica seja um “mal menor”.

É, o Mundo é dos NET’s...


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DAS PRIORIDADES POLÍTICAS PAULISTANAS ou SOBRE OS RISCOS DE VOTARMOS SEM A DEVIDA RESPONSABILIDADE  05/11/2009

 Vereador Agnaldo TimóteoVisitando a página pessoal de um amigo, o Alex, deparei-me em seu blog com um texto intitulado “Epístola a Timóteo”.

Considerando a agitação intelectual deste ser que, por sua característica eclética, deveria ter nascido em meados da Renascença Italiana, imaginei vários assuntos que poderiam ali estar sendo abordados sob o curioso título.

No afã de amenizar minha curiosidade, pus-me a ler e, ao entrar em contato com a fina ironia utilizada pelo autor, espantei-me diante de mais uma prova concreta da infeliz utilização dos recursos públicos, fornecidos a grande custo pelos contribuintes, neste caso, os paulistanos.

O fato que o texto inteligentemente reporta revela qual seria a “preocupação maior” de um de nossos legisladores, o vereador Agnaldo Timóteo. Eis que o comprometido vereador, dentro das várias possibilidades de ocupação que o seu cargo demanda, dedicou o tempo remunerado pelos impostos pagos por nós para elaborar e propor um projeto de lei que, pasmem, propõe a mudança do nome do Parque do Ibirapuera para Parque Michael Jackson.

Não vou questionar aqui a pieguice do fato , até porque poderia cometer o erro da soberba, uma vez que gosto e bom senso me parecem conceitos subjetivos. Porém, objetivamente, podemos constatar que se o ilustre vereador pode investir o seu tempo – que não é dele, é nosso, é de quem o remunera – no tratamento de uma questão de tão baixa relevância, é porque todos os outros problemas municipais, que qualquer pessoa que viva e os sofra dentro desta cidade saberá apontar às dúzias, estão resolvidos ou em vias de serem.

É revoltante, embora não surpreendente, a brincadeira que praticam aqueles que deveriam se ocupar da coisa pública em São Paulo.

A justificativa dada pelo próprio vereador e exposta em matéria da Folha de São Paulo, por meio de um vídeo, é a de que “o mundo presta homenagem ao mais fantástico (sic) showman do planeta, nem Beatle (sic), Rolling Stones, ninguém pode babar o rabo do Michael Jackson”.

Mesmo sem compreender muito bem o que seria “babar o rabo”, creio ser perceptível o absurdo da proposta que ainda contaria com a edificação de uma estátua do falecido cantor estadunidense, ao lado da qual viriam, segundo Timóteo, pessoas de várias partes do mundo para tirar fotos.

Não que um cantor ou qualquer outro artista não possa ter a capacidade esperada de quem se proponha a legislar em favor da cidade de São Paulo, mas quando um indivíduo é eleito apenas por ser artista – e, após tal episódio, isto ficou claro - chego a me perguntar se não estaria correta a assertiva que afirma ter cada povo o governo que merece!

Num desesperado esforço de raciocínio, pergunto-me quais eram as expectativas de uma grande parcela da sociedade paulistana quando “escolheu o cantor” fluminense para representá-la na Câmara Municipal?

Levando em consideração uma das possíveis respostas, a que resvala na formação educacional legada pelo aparelho de televisão, e tendo em mente que o nobre vereador não ascendeu ao exercício do poder de maneira desleal, que ele só pôde propor o absurdo porque participou das regras do jogo e “foi escolhido” para tal por ser um artista conhecido, só posso concluir que o sofrível espetáculo oferecido aos paulistanos no circo armado pelo referido político não chega a ser uma contradição.


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1 - Assista ao vídeo acima citado, que apresenta o vereador se justificando, em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u632242.shtml

2 - Veja a reportagem do Estado de São Paulo, que descreve o absurdo, em: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,agnaldo-timoteo-quer-ibirapuera-como-parque-michael-jackson,441001,0.htm

3 - Leia a pertinente crítica de Alex Nunes visitando sua página pessoal em: http://www.alexnunes.com.br/blog.php



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A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO ATINGIU SEU ÁPICE?  30/07/2009

não tem descriçãoNas últimas quatro ou cinco semanas, vimos a atenção da sociedade mundial voltada para o lamento da morte do cantor estadunidense Michael Jackson. Também eu lamentei, como sempre, a partida de um ser humano, sobretudo quando deixa com sua morte o convívio com os filhos ainda pequenos que, acredito, sentirão sua falta.

Desde o óbito ocorrido aos 25 de Junho e de sua divulgação, presenciamos a tentativa de explicação do fato por meio da especulação de seus supostos motivos, o questionamento de onde estaria o corpo e onde seria enterrado, além de termos podido acompanhar o funeral ao vivo. A todo o momento, o fato é revivido nos telejornais com a inserção de novas “problemáticas” como a guarda dos filhos do cantor ou a divisão da herança, entre outras.

Bem, tudo isto é sabido por qualquer um que, mesmo sem o devido interesse, como eu, é forçosamente interado de tudo pela amplitude alcançada pela divulgação praticada pelos meios de comunicação e pelos comentários subsequentes.

A questão que desejo levantar ao escrever estas poucas linhas é a seguinte:

· Em uma população mundial da ordem aproximada de 6,7 bilhões de indivíduos, é razoável supor que neste último mês tenham morrido algumas centenas, senão milhares, de pessoas que dedicaram suas vidas à promoção do bem-estar de outros, como médicos que trabalham nas periferias dos grandes centros em condições desfavoráveis ou bombeiros que, no exercício do trabalho, salvam vidas - para não citar os que anonimamente praticam trabalhos voluntários.

Pergunto, então:

· Entre uma e outra manchete sobre a morte do famoso cantor, qual foi o relato dado a estes acima citados que realizaram benesses sociais muito maiores do que canções e coreografias?

Nenhum!

Levando-se em consideração que a mídia só “vende” aquilo que é “consumido” e que seja razoável supor que se noticie a morte de pessoas importantes que alcançaram destaque por meio do seu trabalho em vida, sendo, no momento de seu falecimento, digno de nota, podemos concluir que a sociedade que compomos dá maior valor a alguém que deixa músicas e coreografias como legado do que àqueles que, em seu anonimato, ocupam-se do bem-estar alheio, por profissão ou não.

Considero a arte de extrema importância para a composição do homem e não tenho absolutamente nada contra Michael Jackson que, como se sabe, utilizou seu trabalho a favor de algumas causas de cunho humanístico, mas espanta-me pertencer a uma sociedade que transforma a morte de alguns em espetáculo sem nem mencionar a espetacular conduta em vida de muitos que se doam pelos outros.


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CARNAVAL: ANOMIA MOMENTÂNEA OU REFLEXO DO DESRESPEITO COTIDIANO?  21/02/2009

 NO PAÍS DO FAZ DE CONTA!Mais uma vez, é Carnaval!

Eis o momento em que a pouca observância ao respeito ainda restante em nossa sociedade nos deixa por completo em nome da alegria, da felicidade...
Não, não sou moralista. Não estou falando de cobrir mulheres semi nuas ou censurar a sensualidade. A beleza feminina me fascina, apesar de entender o exagero como gerador da banalidade e da perda de valor. Também não tenho a hipocrisia por hábito: fico muito contente em ter quatro dias para descansar e, quase sempre, utilizo-os para me afastar o máximo possível da descontrolada manifestação de alegria gratuita.

Estou me referindo à perda do direito, ao menos àquele que ainda penso que possuo. Explico.

Resido ao lado de uma “Escola” de Samba. Ao longo de todo o ano, sofro as consequências do culto nacional à mediocridade. Quando ainda longe do tão aguardado mês de fevereiro, pessoas se reúnem na referida entidade para “ensaiar”. E elas ensaiam. Ensaiam a bateria e eu sou obrigado a ouvi-la. Rotula-me por chato? É que ninguém me perguntou se eu estava de acordo em ouvir aquele ruído das vinte duas horas até o amanhecer, toda quarta e domingo, tendo que acordar cedo para trabalhar nos dias seguintes. Achei que tivesse o direito ao descanso, mas, sobretudo, à escolha.

Porém, se todo o problema se resumisse ao sonoro incômodo, eu nem estaria aqui escrevendo.
Conforme o período de “festa” vai se aproximando, os “ensaios” vão se tornando mais freqüentes e o absurdo ganha força. Pessoas que deles fazem parte, chegam de vários lugares, chegam de carros, e os estacionam defronte a minha garagem, às vezes em fila dupla, quando não, sentem-se à vontade para fechar a rua. Se por ventura minha mãe, aquela que, com todos os seus defeitos, sempre me ensinou a observar o direito das pessoas - e quando erro neste sentido, não é por falta de tentar acertar -, tiver um enfarte, ou seja, se for um caso de vida ou morte, o resultado final será a morte. Não conseguirei sair da garagem da minha casa - casa sobre a qual pago o IPTU - com o meu carro - carro sobre o qual também sou anualmente taxado - para socorrer a minha mãe. Ela falecerá em nome da “Cultura Nacional”. A cultura - aqui com sentido de culto - ao vulgar, ao banal e ao medíocre, mas, pior, ao desrespeito.

Antes que alguém me questione sobre os meios legais, antecipo-me em esclarecer que polícia e detran já foram chamados: adivinhem o resultado!

Sem contar que resíduo em um sanitário público. Sim, pois as pessoas que freqüentam os “ensaios” da “escola”, fazem de banheiro o corredor de acesso a minha porta. Um dia, quando chegava em casa, deparei-me com duas “moças” pelo caminho: uma estava agachada, urinando com a calcinha nos joelhos e a outra tentava inutilmente encobri-la. Quando adentrei o corredor, ela balbuciou alguma coisa da qual eu só consegui entender, por tão nervoso que estava, uma pergunta: você mora aqui? Respondi-lhe que sim, que eu habitava o banheiro dela, mas que estava tudo bem, ela não tinha capacidade para compreender o que aquilo significava: afinal, ela com certeza estava com vergonha de sua posição desconfortável, não do próprio ato.
É, devo estar me tornando velho e intolerante! Como não compreender a grande festa nacional!!!

Algumas colegas da área de Artes , em conversa sobre este tema, lembraram-me que devemos levar em conta o processo artístico-criativo da confecção de fantasias e, ainda, que normalmente a História é revisitada por meio dos enredos. A elas disse, porque nisso acredito, que o saldo é negativo e, portanto, os motivos perdem sua validade: que incentivemos os livros e os debates, e que a criatividade seja usada a serviço do respeito e do bem-comum!

Claro que haverá sempre aquele que me acusará de generalizador: “não são todas as pessoas envolvidas na celebração do Carnaval que urinam e defecam em frente a sua porta! Nem todos que “desfilam” (que ridículo!) na avenida ou que se prostram na arquibancada do sambódromo (quase não acredito no termo!) são aqueles que lhe cerceiam o direito de ir e vir, nem são todos os simpatizantes de Momo responsáveis pelo “batuque” desrespeitoso e ilegal que se perpetua até tarde da noite, prejudicando seu sono, seu rendimento no trabalho, e conseqüentemente a todos que dele dependem!”

Claro que não o são!

Mas penso que quando se tem bom senso (o inverso do senso comum?), informação e sobre ela se reflete, você não apóia eventos que se edificam no desrespeito e no prejuízo de direitos legítimos, a não ser, é claro, que você seja brasileiro...

Um ótimo Carnaval a todos!
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ENTREVISTA COM BIAL ou DA LIBERDADE PARA PROMOVER A ALIENAÇÃO  06/02/2009

 Indústria Cultural BrasileiraCaro Pedro Bial, não fosse o senhor uma pessoa com um nível de conhecimento e discernimento tão grande, conforme demonstram os trabalhos sérios pelo senhor já desenvolvidos, eu não estaria colocando no “papel” estas dúvidas que insistem em me perseguir pelos últimos nove anos, desde que o vi participando de um projeto tão socialmente negativo, para não cometer o arrogante erro de afirmá-lo “de gosto duvidoso”.

Se não tivesse o senhor uma carga intelectual muito mais significativa do que a observada na maioria dos apresentadores dos fatídicos programas de auditório, que servem para manter na mesma lamentável condição a maioria dos brasileiros, não lhe acrescentando nada além das futilidades que amenizam as preocupações e cansaços nas tardes, noites e finais de semana que permanecem à frente do televisor, não fariam sentido algum minhas dúvidas sobre o desserviço que o senhor presta à nação, que aliás empresta seu nome ao referido espetáculo: Big Brother Brasil.

A propósito, o que diria o ensaísta inglês George Orwell (1903 - 1950) ao ver sua obra relacionada a tão banal empreitada. O Grande Irmão de 1984 (1948) nos parece menos maléfico do que seu homônimo programa.

Tenho certeza absoluta que o senhor é consciente de que o “entretenimento” que comanda a nove anos não serve para promover nada de útil, sob nenhum aspecto, à sociedade da qual fazemos parte, então, senhor Bial, a dúvida que me persegue neste tempo todo é “por quê”?

Por que fazer parte de algo tão desprovido de sentido social?

Por que encabeçar um “trabalho” que serve para promover como prioridade valores que nossa sociedade já possui em demasia e que fortalece o individualismo frente ao social, a aparência frente à essência, o ter frente ao ser? Valores como a superficial e vazia beleza física, o desejo por se fazer famoso mesmo ao preço de sua dignidade, e a posse de riquezas quase a qualquer custo?

Ou não será premiado com uma grande soma em dinheiro aquele que conseguir permanecer três meses fazendo micagens para as câmeras, exibindo-se sensualmente, discutindo futilidades, chorando e rindo à toa, como se o mundo fosse um grande conto de fadas?

Por que promover a alienação para além do que as novelas, o nosso tão amado futebol e os patéticos programas de auditórios já o fazem?

Se eu pudesse indagá-lo pessoalmente, talvez o senhor me desse como resposta algo similar ao que o ouvi falar em uma entrevista que outrora concedera, na qual alegava que o Big Brother é um programa com características de divertimento popular, e que se tinha grande audiência, era porque o povo o aceitava, porque era interessante.

Tal afirmação me faz lembrar o pensamento do filósofo alemão Theodor Adorno (1903 - 1969), quando ele nos adverte que o uso do termo “Cultura de Massa” seria errado por levar adiante a ideologia daqueles que promovem a difusão de tal cultura, atribuindo ao povo um interesse que na verdade é apenas de uma determinada classe social, que consegue sua “hegemonia” na direção da “Indústria Cultural”.

Não me lembro em qual obra li e portanto não posso citar o autor, perdoe-me pela falha, mas já fora dito que democracia é fornecer ao povo o que ele precisa e que dar ao povo o que ele quer é demagogia.

Pois bem, senhor Bial, por que comandar mais um projeto demagógico neste país?

Só para exemplificar, e talvez até me justificar, senhor Bial, na segunda-feira (02/02/09), enquanto o programa de debates Roda Viva, da ignorada Rede Cultura de Televisão cedia espaço na mídia para que o filósofo esloveno Slavoj Zizek (1949-) apresentasse suas idéias sobre política mundial, acerca de ideologia e outros assuntos que quando refletidos podem gerar alguma ferramenta de auxílio na compreensão do mundo, a emissora que você representa indagava pessoas nas ruas permitindo que estas opinassem sobre quem seria o mocinho a ser mantido sob a tenda do circo e quem deveria ser o eliminado do triste espetáculo.

Mais um exemplo, entre tantos possíveis para reforçar a percepção do absurdo que é dar audiência a um programa como o Big Brother, nesta última quinta-feira (05/02/09), a TV Cultura retransmitia uma edição de seu programa Opinião Nacional, no qual seus participantes discutiam a questão do racismo no Brasil, em especial, a situação atual daqueles que possuem ascendência africana.
Coincidentemente, nos mesmos dia e horário, no programa Entrevista Record, veiculado pela emissora Record News, a apresentadora mediava um debate sobre a validade moral da instituição das cotas para o ingresso de negros em universidades públicas.
Enquanto isso, Bial, a “mostra de realidade” (reality show) por você comandada contemplava os que lhe dedicavam tempo com uma discussão promovida pelos fúteis participantes do dito programa sobre a validade moral do uso do sabão para matar formigas do jardim ou se era mais adequado guardá-lo para a lavagem de roupas. Sem citar as incríveis provas aos quais os “micos de circo” se submetem para serem líderes sei lá de que, nas quais, pelo pouco que “precisei” ver, os infelizes participantes se destacam por passarem o maior número de horas em pé com a mão para o alto, escorregarem por uma lona cheia de “papinha de bebê”, entre outros absurdos...

O senhor, ou aqueles que gostam do seu programa e que com certeza têm todo o direito em assisti-lo, poderia afirmar que se tanto me incomoda a veiculação do mesmo, bastaria eu ignorá-lo, não assisti-lo.
A questão é que, mesmo percebendo a inutilidade, a ideologia socialmente imobilizadora, a falta de propósito em acompanhar os três lamentáveis meses pelos quais o “Carnaval antecipado” nos tenta ser empurrado goela abaixo pela vossa Rede de Televisão, mesmo não lhe dando audiência, enquanto brasileiro, sofro as conseqüências da alienação que se apresenta cotidianamente em nossa sociedade, a qual o seu programa ajuda a fomentar.

Minha dúvida é sincera, senhor Bial: por quê?
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SOBRE A SAGRADA HIPOCRISIA ou LENNON JÁ PODE DESCANSAR EM PAZ!  22/11/2008

 LENNON: O PERDOADO!Mais uma pérola da nossa amada Santa Sé: Aquela que por séculos fez a guerra perdoou aquele que por uma década cantou a paz.

A partir do vigésimo primeiro dia de novembro, do ano do Nosso Senhor de 2008, John Lennon poderá descansar em paz!
Finalmente, dentro de seu “irrepreensível” padrão de conduta “nada contraditório”, o Vaticano, por meio de uma de suas publicações, o “L’Osservatore Romano”, declarou que o Beatle estava oficialmente perdoado pela Sacra Instituição. Segundo ela, a frase pode ser qualificada como “a bravata de um jovem da classe trabalhadora inglesa impressionado com o sucesso, após crescer sob o mito de Elvis Presley”.

Apesar de entender na polêmica frase que gerou tanta insatisfação, “Somos mais famosos que Jesus Cristo”, a tentativa de Lennon dizer que, naqueles anos da década de 60, mesmo quem não professasse a fé Cristã conhecia a música do quarteto de Liverpool, penso que ele poderia tê-lo feito de outra maneira, buscando outro referencial para abordar o extraordinário alcance mundial que o trabalho dos Beatles obteve.

Acredito que não devemos utilizar determinados parâmetros de comparação para emitirmos nossas opiniões: podemos e devemos ser mais cautelosos!

Porém, fico me perguntando quem concedeu à Igreja Católica o direito de falar em nome de Cristo.

Se algum dia, nos mais primitivos tempos do Cristianismo, dentro do mito (aqui sem nenhuma conotação pejorativa) Judáico-Cristão, Pedro tivesse fundado uma Igreja em nome de Jesus Cristo, credenciando-a a agir e falar em Seu nome, ela perdera tal prerrogativa por ter escolhido o caminho que passa longe da paz, da humildade, do respeito e, enfim, do amor.

Sei que existem quadros da Igreja que, ignorando as contradições históricas da Instituição, desenvolvem um belíssimo trabalho de amor ao próximo, junto àqueles que necessitam. Mas, se fôssemos utilizar os acertos individuais para justificar os erros coletivos, não precisaríamos que os indivíduos fossem representados por uma instituição.

Pergunto-me:

· Quem perdoará a Igreja pelos milhões que morreram em “nome de Deus” em suas “Guerras Santas” contra os “infiéis”?

· Quem perdoará a Igreja pela morte de Giordano Bruno e de tantos outros que foram queimados vivos simplesmente porque ousaram dela discordar?

· Quem perdoará a Igreja por fazer mentir Galileu Galilei em nome da “Verdade Divina”?

· Quem perdoará a Igreja pela imposição da “Verdade” aos índios americanos que foram exterminados quando, no século XV, foram vítimas da cumplicidade entre os papas e os reis europeus?

E limitarei minhas perguntas aos casos expostos acima não porque faltem outros episódios trágicos na história da entidade que se põe, milenarmente, como a “portadora da Verdade”, mas porque não quero pisar em terreno duvidoso, como o que sustentou os pés nazistas no século XX, preferindo ficar apenas com aquilo do que não se possa refutar.

Parece-me ridículo quando vejo a “Instituição do Telhado de Vidro” querendo arbitrar, não raramente, os padrões ético-morais e outorgar perdões em nome de Deus.
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SOBRE A BENEVOLÊNCIA CONTEMPORÂNEA ou DA REAÇÃO AO DESRESPEITO COTIDIANO  14/11/2008

 Sentimento que aflora diante de tais procedimentos...Gostaria de utilizar este espaço para publicar um “agradecimento” ao Grupo HSBC. O motivo de minha “satisfação” é a benevolência de tal entidade.
A empresa em questão enviou para minha casa, “acredito” que visando meu bem-estar, um cartão que, nas palavras impressas no comunicado que acompanhava o mesmo, seria “mais um benefício especial para você“. Por meio dele, eu poderei “verificar o extrato do seu Plano de Previdência”.

Como o você em questão, neste caso, sou eu, e eu não solicitei cartão algum, nem mesmo autorizei a confecção e o envio de qualquer tipo de “benefício” para minha casa, muito menos possuo Plano de Previdência, tenho em mente que a já citada empresa, a qual nem mesmo sou associado, zela pelo nosso conforto, mesmo que isto venha a nos importunar na forma de telefonemas constantes para oferecimentos já antes recusados.

Como é bom saber que nós, simples cidadãos assalariados, temos formidáveis organizações que se pré-ocupam (literalmente) de nossas vidas; especialmente no âmbito financeiro.

Será que o Departamento de Marketing desta empresa não percebe que tamanho desrespeito tem como conseqüência última a insatisfação de quem é levianamente incomodado e que, portanto, a propaganda que se edifica por meio de tal prática é totalmente negativa?

Recomendo a todos que passam não raramente por tal transtorno que releguem as instituições que agem desta maneira arbitrária, colocando-as, sempre que possível, como a última na lista de opções para os serviços que prestam.
Enquanto ficarmos apenas nervosos, mas consumindo seus produtos, o desrespeito continuará.

É evidente que guardo tanto o cartão quanto o referido comunicado, uma vez que, ao redigir estas linhas, posso lamentavelmente vir a perceber que o Departamento Jurídico desta empresa é mais eficiente que o de Marketing.
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SOBRE O RISO QUE SUCEDE AO NOJO  10/09/2008

 PINOCCHIO - Carlo Collodi - 1883Como este espaço é visitado por muitos dos meus alunos, alguém poderia dizer que eu não deveria expressar minha opinião política de forma tão acintosa enquanto professor. A estes me antecipo justificando minha atitude no pensamento do saudoso professor Paulo Freire (1921-1997), que, em sua Pedagogia da Autonomia (1996), situa como obrigatório o nosso posicionamento político na prática docente para que esta se caracterize como libertária.
Mas nem precisava ir tão longe, meu comentário é breve e superficial

Estamos em ano de eleições municipais e, como diz a frase feita, da qual me sirvo aqui, “seria cômico se não fosse trágico” assistirmos ao programa eleitoral gratuito. Mas é no mínimo “curioso”!

De um lado, vemos uma frágil porém radical esquerda, de outro, a Social Democracia que gerência a coisa pública valendo-se de leis de mercado, tratando Educação e Saúde como se todos tivessem oportunidades iguais dentro do capitalismo brasileiro.
Entre um extremo e outro, encontramos a pseudo-esquerda petista, que, após os seguidos – embora não inéditos – erros recém cometidos no âmbito federal, deixou de ser o lugar-seguro para quem é amante do lícito e inimigo da corrupção.
Isto tudo para não citar o partido que mudou de nome: o que você diria de alguém que, subitamente, desejasse – ou necessitasse - modificar o substantivo pelo qual é conhecido?

Por essas e outras, confesso: sinto-me perdido!

Porém entre muitas dúvidas, possuo uma certeza: Paulo Maluf!
Usando de divina ironia, faz aprendizes do riso humoristas famosos como Chico Anísio (1931 - ) e Jô Soares (1938 - ).
A Loucura, elogiada por Erasmo de Rotterdam (1466-1536) em 1511, não teria exemplo mais claro do que aquele que se constitui no eleitorado “malufista”.
Torna-se hilário – depois de passada a náusea – escutá-lo discursar!
Sua fala faria inocente o pequeno boneco dos “olhos de pinho” (Pinocchio), criado por Carlo Collodi, ao término do século XIX.
Ao vê-lo proclamar a lista enorme de seus feitos ainda maiores, perco-me na Matemática imaginando o montante que fora desviado dos cofres públicos durante suas gestões – mas logo me conformo, uma vez que nem os legistas especialistas o sabem ao certo.
De tudo que sua campanha de marketing exibe no “horário nobre”, concordaria com o tão repetido “slogan”, se ele tivesse sido corretamente completado:

Esse é o cara, é o cara, é o cara,
Esse é o cara, é o cara, é o cara,
Esse é o cara, é o cara, é o cara DE PAU!
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SOBRE O PÓDIO E A EDUCAÇÃO ou ENTRE O POSITIVISMO E A ALIENAÇÃO  03/09/2008

 PEQUIM 2008: EQUIPE FEMININA DE VOLEIBOL NO ALTO DO PÓDIOAlguns feitos nesta recém-terminada Olimpíada ficarão eternizados. Muitos de forma extremamente positiva, outros, nem tanto. Na manhã do vigésimo terceiro dia do mês de Agosto, vimos com muita alegria o êxito da equipe feminina de voleibol do Brasil. Como fruto da aliança entre dedicação e talento, as jogadoras brasileiras subiram ao lugar mais alto do pódio, sendo ladeadas pelas superpotências esportivas da atualidade – Estados Unidos e China, segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Enquanto nos emocionávamos com a subida de nossa bandeira, os mais atentos perceberam um fato que se torna corriqueiro e, no mínimo, contraditório à magnífica vitória no esporte: os brasileiros e simpatizantes que assistiram ao jogo no ginásio, orgulhosos do feito ali presenciado, colocaram-se a cantar o hino nacional entusiasticamente. Eis que mais uma vez o que vimos, ou melhor, ouvimos foi uma mistura de palavras, compensada pela melodia inconfundivelmente bela.

Se o acontecimento descrito acima não fora mais perceptível, isso se deveu ao fato de nossos atletas não terem estado no topo por muitas vezes. Porém, o que digo é facilmente constatado quando, nos mais diversos setores da vida nacional, os brasileiros são chamados a cantar o hino: ninguém sabe ao certo - ou muita gente se atrapalha - a seqüência dos versos, muito menos o significado das palavras.

Não me entendam como pedante, não trato aqui do erro em si: haja visto a quantidade enorme deles que estas páginas devem conter.

Falo da contradição, uma vez que tanto o hino quanto o esporte podem ser enquadrados na tão extensa - e fraca enquanto conceito - categoria de “cultura”. Perante o primeiro lugar no desporto, o povo saúda sua equipe – e nação – cantando erroneamente a letra do hino do país!

Com certeza tal situação vexatória não condiz com a grandeza demonstrada pelo time de volei e por seu técnico - o muito competente e historicamente injustiçado José Roberto Guimarães. Mas está intimamente ligada à condição estrutural da nação, e esta não pode reclamar de um fato que é fruto de sua própria concepção, da valorização que dá às coisas fúteis: ou porque são apreciadas pela maioria e, conseqüentemente, vendem mais; ou porque daria muito trabalho a busca pela excelência.

Apesar de ter um certo apresso pela ordem - a que emerge do questionamento e não da aceitação – não sou discípulo de Auguste Comte (1798-1857) e não acho que as pessoas tenham a obrigação de decorar o hino nacional. Aliás, ninguém deveria decorar nada! Enquanto professor de História, nunca obriguei um único aluno a cantá-lo. Mas sempre incitei a todos eles a compreenderem o conceito de nação e, uma vez que o hino é parte integrante dele, a buscar o entendimento do que dizem suas palavras e a verificarem se o que elas expressam correspondem àquilo que realmente ocorrera no início da formação do país.

Porém, uma vez que nos propomos fazer qualquer coisa, até mesmo cantar o hino de nosso país, acredito que devemos procurar fazê-lo da melhor maneira possível, com propósito, com significado.

Ou então podemos substitui-lo por uma “melodia” mais conhecida e bem aceita, como algum funk ou axé; talvez por um dos tão “criativos” jingles que se propõem anunciar cerveja, pela mídia tão prestativa, à grande massa alienada; ou até mesmo pelo hino de algum grande clube de futebol, tão mais divulgado e conhecido, ouvido e cantado em quase todos os finais de semana.
Não teríamos o trabalho de tentar nos educar e nem passaríamos a vergonha de sermos parte de uma nação que a canta sem saber o que diz.
VENTURA_Entre_o_positivismo_e_a_alienacao.doc arquivo para download




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A ESTÁTUA DA LIBERDADE ENTERRA O ESPÍRITO OLÍMPICO  21/08/2008

 Durante todo o período conhecido como Guerra Fria, tanto a União Soviética quanto os Estados Unidos serviram-se dos Jogos Olímpicos para fazer propaganda dos seus sistemas político-governamentais antagônicos. Se a referida época faz parte do passado, a prática descrita certamente ainda vigora.

Analisando as disputas esportivas dentro do ínterim compreendido entre o pós-guerra (1945) e o desmantelamento da União Soviética (1991), observamos um certo equilíbrio, demonstrado por uma relativa alternância das duas superpotências econômicas e militares na primeira posição do quadro de medalhas ao término de cada competição (veja o quadro comparativo, baixando o texto disponível para download).

Como sabemos, tradicionalmente, o critério para se avaliar o primeiro colocado sempre fora a qualidade, e não a quantidade, ou seja, aquela nação que conquistasse o maior número de medalhas douradas era eleita a vencedora dos Jogos.

O Muro de Berlim caiu levando consigo a ideologia e a ditadura comunistas. O capitalismo e a democracia venceram, não é mesmo?

Pois, diante de uma situação tão favorável aos amantes da “liberdade”, torna-se muito curioso vê-los fazerem uso - no mínimo questionável - da mesma no momento de apresentar o quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos de Pequim.

A "liberdade" nos Estados Unidos é "tão intensa" que a mídia local se dá o direito de contrariar a secular tradição de classificar os países pelo maior número de medalhas de ouro conquistadas - pelo qual, até o 10º dia de competição, a China coloca-se à frente do Tio Sam - construindo a tabela de maneira que favorece o país da Estátua Libertária, tomando por critério o número de medalhas conquistadas no total!

A prática da imprensa ianque diante da derrota e da não confirmação do “Destino Manifesto”, que embalou a Doutrina Monroe e que parece não querer dar as caras no distante Oriente, é a mesma que criou armas químicas e as colocou em território iraquiano para justificar uma invasão num Oriente menos distante, o Médio: a manipulação da informação de maneira que os fatos lhes pareçam favoráveis, mesmo que para isso a “Liberdade” aniquile a Verdade.
Devido à tradição e às modalidades que integram o Atletismo, onde os estadunidenses sempre foram muito fortes, eu até acredito que os EUA consigam terminar as Olimpíadas com um maior número de ouros do que os anfitriões, porém, não deixa de ser curioso ver o desespero ideológico demonstrado perante uma situação de caráter esportivo!

Nesta disputa bipolar, não tomo partido: de um lado, uma “Liberdade” que se nos é imposta pela força, de outro, a força que impede a verdadeira Liberdade. Sempre deixando de lado o nacionalismo exacerbado, que tanto mal já provocou à humanidade, continuarei torcendo pelo meu Brasil e pela Itália de meus pais.

Mas não deixa de ser notória e lamentável a falta de espírito esportivo “norte americano”.

Nem quero imaginar a reação estadunidense caso o “Império do Meio” venha a colocar em risco sua supremacia em áreas estrategicamente mais importantes!
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SOBRE O DIREITO DE BEBER E DIRIGIR ou DO DIREITO DE CEIFAR VIDAS  05/08/2008

 DO DIREITO DE CEIFAR VIDASNo último dia 10 de Julho, o programa de debates Opinião Nacional, veiculado pela Tevê Cultura de São Paulo e mediado pelo jornalista Alexandre Machado, propôs a discussão sobre a Lei 11705, sancionada em 19 de Junho de 2008, que regula a quantidade de álcool ingerida pelo motorista e sua aplicabilidade em face da legislação que já vigora.

Confesso que mesmo antes de assistir ao debate entre os convidados, já possuía uma opinião favorável à chamada “Lei Seca” e sua rígida aplicação com relação ao trânsito em São Paulo. Baseava minha posição nos índices obviamente alarmantes de acidentes com veículos que têm como causa a ingestão prévia de álcool. Mesmo assim, ao ver a chamada do programa, pus-me a assisti-lo, curioso para observar quais seriam os argumentos daqueles que não concordam com a “severidade” da lei.


O programa começa e o mediador apresenta os convidados, a saber:

· Percival Maricato - Diretor Jurídico da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes.
· Fábio Racy - Associação Brasileira de Medicina de Tráfego.
· Roberto Delmanto - Advogado Criminalista.
· David Duarte Lima - Presidente do Instituto Brasileiro de Segurança no Trânsito.



Em conformidade com o formato tradicional do programa, dois dos convidados eram favoráveis e os outros contrários à lei e sua aplicação. Os argumentos dos senhores Fábio Racy e David Duarte Lima foram tão corretamente previsíveis que não me deterei a contemplá-los aqui, a não ser como forma de resposta às tentativas de descaracterização da necessidade e utilidade da lei.

O advogado Roberto Delmanto, efetuando uma análise jurídica da lei, afirma seu caráter de inconstitucionalidade dizendo que qualquer lei deve se subordinar à Constituição da República, e isto não estaria acontecendo porque a Legislação Nacional permitiria ao cidadão a não produção de provas contra si mesmo. Para intensificar seu argumento, ele cita ainda a força dos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário desde 1992: o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de Nova Iorque (1966) e o Pacto de San Jose (1969), assinado na Costa Rica, que estariam em concordância com esta prerrogativa constitucional.

Sobre a exposição de Delmanto, David Duarte Lima faz uso da própria Constituição para rebater o argumento do advogado, afirmando que no parágrafo quinto, inciso segundo, fica expressa a possibilidade do cidadão “agir ou não de determinada maneira, a não ser por força de lei”. Diz ainda que, segundo o raciocínio do advogado, poder-se-ia diante do aparelho identificador de metais, colocados nos embarques de aeroportos, negar-se a passar por ele sob a alegação do “direito de não produzir provas contra si”. Irônica e corretamente, cita também que o sinal vermelho no farol de trânsito passaria a ser visto como “um empecilho ao direito de ir e vir”. Conclui sua afirmação dizendo com toda clareza que “nossos direitos não podem se sobrepor aos nossos deveres com a sociedade”.

Convidado pelo mediador a opinar, o senhor Percival Maricato, advogado e representante da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, inicia sua argumentação afirmando que (1) na sociedade brasileira nem tudo seria perfeito. (2) Qualifica a lei como sendo leviana e irresponsável ao enquadrar na condição de ilegalidade pessoas que tomam o seu “chopinho” e, ao dirigirem, não acarretariam danos à sociedade. (3) Diz que, segundo a lógica que rege a nova lei, mediante ao fato de que a maioria das crianças começa a usar drogas nas escolas, estas deveriam ser fechadas. E que, ainda dentro de tal lógica, seria permitido, então, decretar toque de recolher as 20h00 e como forma de combate ao problema da criminalidade.

(4) Afirma que durante toda sua vida sempre tomou “dois chopinhos” e dirigiu sem cometer erros e que continuará agindo assim. (5) Que a lei trata aqueles que bebem e dirigem como delinqüentes e que devemos repensá-la por termos na própria família pessoas que assim o fazem e que não estariam na ilegalidade. Colocando-se em situação de vítima, diz não aceitar o rótulo de delinqüente por beber e dirigir.

(6) Alegando que a lei peca pela intolerância, citou países, como os Estados Unidos e a Inglaterra, onde o limite aceitável para se dirigir é de 0,8 decigramas de álcool por litro de sangue, e que a taxa imposta pela nova lei brasileira seria muito severa. (7) Diz ainda que 95% das pessoas bebem socialmente e não poderiam ser qualificadas como delinqüentes ao dirigirem após a ingestão de pequenas doses de álcool, e que deveríamos tomar o cuidado para não transformar o Brasil em um Irã.

(8) Sobre o suposto rigor exacerbado da lei, afirma que no Brasil soltam-se pessoas que cometem crimes por não haver vagas carcerárias em número suficiente, e que esse seria mais um motivo para não se dever prender aqueles que bebem em demasia e dirigem.

(9) Novamente invocando a importação de modelos externos, explica que a sociedade deveria possuir policiais mais preparados para avaliar quem, após beber, está maleficamente influenciado pelo álcool e quem não se teria afetado, como, segundo ele, ocorre nos Estados Unidos.

(10) Percival alega que o caminho para a resolução do problema é a Educação. Que antes de haver punição aos infratores, estes deveriam ser persuadidos, por meio da conscientização, a não dirigirem se não estiverem em condições.

(11) Chegando ao ponto que avalio como o que realmente motiva a sua posição, Percival cita o número de um milhão de estabelecimentos que funcionam em razão da bebida e que os seus dois ou três sócios, média, além dos seus seis ou sete funcionários, seriam prejudicados pela lei.



¨ Após ouvir atentamente os argumentos contrários à lei, expressos pelo representante da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, cheguei às seguintes conclusões:

(O número entre parênteses relaciona minhas impressões aos argumentos do convidado)

(1) Tal observação não tem muito valor em face da obviedade que ela acarreta, porém, torna-se preocupante quando a imperfeição do funcionamento de uma sociedade é transformada em argumento e usada com o objetivo de inibir tentativas de combate a problemas, gerando um “atenuante sentimento de conformidade” com uma situação que não é satisfatória.

(2) Leviandade e irresponsabilidade, ao meu ver, estariam presentes no ato de ingerir bebidas alcoólicas e assumir a direção de um veículo, uma vez que está cientificamente provado que, em maior ou menor grau, o álcool atinge a capacidade reflexiva dos motoristas, aumentando a possibilidade destes se envolverem em acidentes. Em outras palavras, uma vez ciente de que a bebida alcoólica afeta, mesmo que menos em alguns, os sentidos de quem pretende guiar um automóvel, beber e dirigir é sentir-se no direito de criar problemas para os outros.

(3) Com todo respeito, tal argumento me parece infantil. Não se fecham as escolas apesar do problema das drogas que, infelizmente, é inerente ao seu cotidiano. Combatem-se os traficantes, inibindo-se o uso. De forma análoga, não se está propondo o fechamento de bares e restaurantes, muito menos advogando-se contrariamente ao direito individual de se fazer uso de bebidas alcoólicas. Apenas é justo que se combata aquele que, não possuidor de bom-senso, se ache no direito de dirigir após beber, colocando a vida de outros em perigo por conta de um capricho.

(4) Confessar os erros é louvável, desde que o ato venha seguido de retratação e mudança de atitude. Dizer que sempre bebeu e dirigiu e afirmar que persistirá no erro porque este nunca resultou num mal maior é colocar-se à espera de uma catástrofe que, depois de ocorrida, o cidadão em questão tentará qualificar como “fatalidade”.

(5) Se eu, ou qualquer outra pessoa de bem, possuir entre seus familiares ou amigos alguém que beba e se ponha irresponsavelmente a dirigir, tal fato não deverá ser argumento para o ataque da lei que busca erradicar tal situação. Caberá a mim, em primeiro lugar o exemplo, e, em segundo, de acordo com o grau de proximidade e de influência sobre a pessoa, uma fala que desestimule tal prática.

(6) É interessante observar como o “representante da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes” por diversas vezes em sua exposição tomou como parâmetro a realidade estadunidense. Dentro da lógica de importar modelos, será que o próximo passo, após a derrubada da lei que atrapalha os negócios, seria impor aos outros países, por meio da força, os nossos interesses?

(7) Peço perdão pela minha ignorância, mas não conheço fontes confiáveis para acreditar no índice de 95% de pessoas que bebem socialmente, conforme o exposto pelo senhor Maricato. O único fator que me levaria a uma percepção deste porte é a intensidade das campanhas comerciais vinculadas pelas empresas de bebidas, certamente apoiadas pela entidade que o debatedor representa.

(8) Outro argumento que, respeitosamente, qualifico como pueril. Nem disponho de um raciocínio adequado para rebatê-lo. Parece-me óbvio que se estão faltando vagas para a detenção daqueles que, por qualquer motivo que seja, desrespeitaram as leis vigentes e, por conseqüência, seus semelhantes com intensidade suficiente para serem presos – como é o caso daquele que bebe e põe em risco a vida alheia -, devemos construir novas celas e não liberar a conduta maléfica.

(9) A lei tenta por meio da punição, na impossibilidade de outro recurso, fazer com que pessoas não saiam dirigindo depois de beberem. Em nenhum momento ela cerceia o direito de quem deseja beber. Para tanto, ela faz uso do índice de 0,3 decigrama de álcool por litro de sangue para determinar quem fez uso de bebida ou não. Deixar a análise por conta da subjetividade de um policial, que, após treino específico, estaria capacitado a dizer quem oferece risco à vida ou não, é que seria, na minha opinião, uma atitude irresponsável.

(10) Novamente o subjetivismo torna tal proposta inviável. Não quero aqui negar ao cidadão do direito e o dever de agir segundo sua reflexão própria, mas considero arriscado, uma vez que vidas estão em jogo, facultar ao indivíduo a percepção de que ele está em condição ou não de guiar um automóvel sem expor ao risco os demais – mesmo porque, se ele não estiver apto a dirigir, não o estará para fazer tal análise. Quanto à educação por meio da conscientização, numa sociedade dotada de tal subjetivismo, onde qualquer pessoa poderia ser capaz de beber e julgar-se apto a dirigir, quem seria o educador? Quem daria o exemplo aos demais?

(11) Atacar o direito à manutenção da vida para preservar interesses econômicos é vergonhoso. Revogar a lei porque ela atrapalha a comercialização de bebidas alcoólicas e, em última análise, os lucros de donos de bares e os empregos de seus funcionários, é uma postura tão ridícula quanto sair por aí ateando fogo em imóveis para preservarmos a empregabilidade do Corpo de Bombeiros.



Como já disse, na apresentação deste espaço, em sua página inicial, “é provável que o erro se faça companheiro” cada vez que eu tentar analisar qualquer situação. Isto porque, como qualquer pessoa, não sou neutro. Possuo interesses particulares e os defendo, mesmo dentro de um esforço para aproximá-los do que seria coletivamente benéfico.
É possível que algum comentário sobre este assunto mude minha percepção acerca da situação e faça com que eu me posicione contrariamente ao que expresso aqui.
Porém, por hora, parece-me claro que na discussão que o programa abordou, mais importante do que o emprego de quem vende bebidas alcoólicas ou o lucro dos empresários do setor, ou até mesmo do capricho de quem, apesar de presenciar a violência no trânsito e as mortes que ocorrem em decorrência dela, acredite ainda que tem o direito de beber e dirigir, deva prevalecer o direito à vida e, acima da lei, o bom-senso.
VENTURA_Do_direito_de_ceifar_vidas_3.doc arquivo para download




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SOBRE O COLISEUM, MAS PODERIA SER MORUMBI, MARACANÃ OU MINEIRÃO  19/07/2008

 COLISEUM, ROMA, ITÁLIAGostaria de propor um exercício de imaginação. Não seria um imaginar que nos afastasse da realidade, mas que, antes disso, criasse mais uma possibilidade de enxergá-la.

Pense na Roma Antiga, mais especificamente no local onde o poder central promovia a distração, oferecendo-a ao povo como panacéia a uma condição de vida subumana. Imagine o Stadium Colossal, com suas arquibancadas super lotadas por pessoas entusiasmadíssimas com a perspectiva do que veriam ocorrer em instantes. Visualize algumas tribunas de honra, reservadas para aqueles que se colocavam como os notáveis promotores do tão importante evento. Traga à mente o espaço central do ambiente, para onde todos olhavam ansiosamente, perceba a existência de alguns cristãos e outros mamíferos menos dóceis lhes fazendo companhia.
O resultado do encontro entre estes dois últimos protagonistas, todos conhecemos. Sabemos mais ainda sobre as intenções daqueles que organizavam e incentivavam tais acontecimentos, “soberbos e de fundamental importância cultural” aos olhos da multidão.
Pois bem, preserve em sua mente o estádio de dimensões gigantescas, mas não se faz necessária a viagem à bela capital italiana: conceba-o em qualquer grande cidade brasileira contemporânea. Mantenha em suas arquibancadas a mesma enorme aglomeração de pessoas ávidas pelo que irá acontecer em breve: desconsidere o fato de que, após a apresentação, a vida delas continuará exatamente como antes – elas também desconsideram.
Lembre-se das tribunas localizadas no centro. Elas continuam lá, porém, devido à evolução tecnológica, você está autorizado a pensar que os principais idealizadores e incentivadores do novo espetáculo não se sentam diretamente no local de destaque, todavia, comandam e divulgam-no por meio de câmeras espalhadas pela arena.
Por falar em arena, retire os poucos cristãos que mantinham um contato injusto com os leões e coloque outros vinte e dois. Aliás, agora podem ou não ser cristãos, afinal o novo evento é popular e acima de tudo democrático!
Para evitar as injustiças às quais se submetiam os Antigos, os leões não ficam mais dentro da arena: estão muito ocupados engendrando a melhor maneira de perpetuar a seqüência destes espetáculos e, como conseqüência, manter suas posições inalteradas na trama social.
A manutenção ideológica do mundo moderno, apesar de mais sutil, demanda mais tempo e preparo. Noventa minutos iniciais que haviam sido precedidos por toda uma semana de “debates sérios e exaltados”, na busca de um prognóstico para tão meritório episódio!

Na verdade, independentemente de qual lado saia vitorioso, teremos sempre o mesmo cenário: após o término da festa, metade da platéia parte extremamente feliz, esquecida de seus problemas, não se lembrando da fome, do desemprego, da ausência de cuidados, nem mesmo da carestia por que passa. Acredita-se imune a todo tipo de mal que existe no lado externo do grande palco. A outra metade fica tão apática com a derrota que também busca o esquecimento. Um esquecimento momentâneo, no máximo uma semana, até a próxima oportunidade de “conquista” naquele cenário que agora abandona tristemente.
Tanto os primeiros quanto os últimos, assim como os antigos, não têm força, atenção, intenção nem vontade para incomodar os grandes Césares que continuam a governar a bel-prazer e a divulgar a “importância cultural dos eventos que promovem”.
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O CINZA E O VERMELHO NOS VAGÕES DO METRÔ PAULISTANO  30/05/2008

 interior do metrô paulistano, por Alex NunesTenho por hábito servir-me do metrô em meus deslocamentos cotidianos pela cidade. Juntamente com tantos outros que também o fazem, participo, durante minha permanência nos vagões, de um micro-universo que reflete, mesmo que não de forma perfeita, o conjunto da sociedade e alguns hábitos comportamentais que praticamos em seu interior.
Neste contexto, publicamente diverso, ponho-me a observar e as reflexões brotam quase que involuntariamente. Pergunto-me, e a quem estiver dedicando seu tempo a estas linhas, por que precisamos que alguns bancos do trem sejam diferentemente pintados para que os indivíduos que mais necessitam dos assentos consigam utilizá-los com prioridade? Por que pessoas, aparentemente saudáveis, aglomeram-se de forma quase hostil diante do espaço frontal à porta e, quando esta lhes permite a passagem, correm em direção aos bancos sem observarem nenhum critério de necessidade; já que evocar alguma cordialidade gratuita seria utópico?
A falta de alteridade, por parte das pessoas, no comportamento em público na sociedade paulistana, e a cito em particular porque dela faço parte e razoavelmente a conheço, é tão evidente quanto ignorada, fazendo emergirem leis, ridiculamente necessárias, como a que reserva alguns assentos nos vagões para aqueles que possuam direito prioritário ao uso, sendo que tal percepção deveria estar incutida em cada usuário do sistema, toda vez que utilizasse qualquer um dos bancos em sua viagem.
Não quero com esta breve explanação colocar em dúvida a utilidade da lei, muito menos o direito de idosos, gestantes ou qualquer pessoas com especial necessidade de terem prioridade ao uso dos assentos, justamente por entendê-lo como legítimo em si mesmo, questiono-me sobre os motivos pelos quais chegamos a esta situação limite dentro do convívio social.
A coloração cinza dos assentos reservados nos trens do metrô paulistano deveria deixar qualquer pessoa de bom senso com a face ruborizada.
VENTURA_Cinza_e_vermelho_nos_vagoes.doc arquivo para download




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CONSTATAÇÃO, REDESCOBRIMENTO E DESMISTIFICAÇÃO DIANTE DA DOR  15/08/2006

 COMO SEMPRE, SOBRE SEUS OMBROSNeste final de semana, diante da dor de perder meu pai, tive a oportunidade de constatar o que já sabia, redescobrir o que sabia mas não me dava conta e desmistificar o que acreditava mas se mostrou um pouco diferente.


Redescobri um primo que agiu como um irmão e, com ele, minha Madrinha. Poderia ser uma constatação pelo afeto que sempre tive por ele desde nossa infância passada em comum, jogando bola na praça, empinando pipa nas férias, simulando os policiais do seriado Chips (ele era o Ponchi e eu era o Backer...rs, acho que nem se lembra), roubando os doces de aniversário que minha madrinha fazia, ou mesmo se esmurrando periodicamente, afinal, éramos crianças. Mas, às vezes a vida vai nos levando sem que nós a vivamos com consciência plena e a distância cotidiana se impõe. Nesta noite, voltei à infância e nunca vou conseguir agradecer nem relatar o bem que ele me fez. Portanto, só posso afirmar que redescobri um primo que agiu como um irmão (o que não deveria me espantar por ele ser filho de quem é).


Constatei uma companheira. Do momento em que teve a infelicidade de me pôr a par do início do meu pesadelo até o momento em que escrevo estas linhas, esteve ao meu lado. Sua presença fez com que eu compreendesse melhor o sentido da palavra cumplicidade. Sei que infelizmente terei a oportunidade de lhe retribuir, e estarei lá quando o vazio que hoje me contempla estender seus braços a ela.

Constatei um cunhado. Há mais de dez anos presente em nossas vidas. Amado por meus pais, no pior momento da minha vida ele estava lá e me fez constatar que as palavras que minha mãe sempre dedicou a ele, com o endosso do meu pai, eram legítimas e ele tem também o meu amor.


Contextualmente, constatei minha irmã, interiormente, a redescobri.
A constatação se deu porque seu comportamento enquanto filha “continuou” sendo exemplar no cuidado com meu pai e minha mãe. O redescobrimento fica por conta do entendimento de que qualquer avaliação negativa de caráter menor cai por terra quando, num momento como este, a pessoa se mostra digna, benéfica, importante, indispensável.

Constatei um amigo que passou frio ao meu lado por toda aquela noite que se negava a acabar e, ao amanhecer, cochilou sentado ao sol só para me demonstrar que estava ali comigo. Eu nunca me esquecerei disto.

Constatei amigos que por vários motivos ali não estiveram, mas cujo carinho manifesto a posteriori confirma o sentimento que a eles me identifica.

Ao mesmo tempo, durante toda a gélida noite e quando fechei o caixão de meu pai e o pus embaixo da terra, desmistifiquei algumas impressões sobre alguns amigos: não que eu venha mudar o que por eles sinto, mas ficou-me clara qual a verdadeira intensidade da recíproca e a percepção de que as pessoas têm outras prioridades.

Constatei a hipocrisia de uma “tia” que, diante da dificuldade em vida, abriu mão do convívio recomendando-nos que roêssemos o osso já que nos tínhamos servido da carne e, diante da passividade imposta pela morte, pernoita ao lado do caixão denotando incoerência. A velha máxima se pôs de pé contrastando com a situação do meu pai: depois de morto, não adianta!

Mas esta mesma noite continuou impondo-me constatações e redescobrimentos.

Redescobri uma amiga e vizinha que, ao saber do fato, largou o que estava fazendo e se pôs em deslocamento, muito longo por sinal, somente para me dar um abraço dizendo que estava ali.


Constatei Tias e Primos verdadeiros que se o ritmo do cotidiano nos afasta sem que percebamos, as dificuldades, a dor e a necessidade de solução nos aproximam, ao invés de servirem de desculpa para o comodismo.
Fiquei emocionado com a presença de duas primas, irmãs, que há muito não via e com o telefonema de sua mãe que demonstrou afeto e preocupação para conosco.
No meu entorno, fechando o caixão já que meus dedos não conseguiam girar as travas de metal no encaixe de madeira, pude notar meia dúzia de primos. Primos que há muito não os via, mas que nunca se negaram e que naquele momento estavam ali, com os olhos sinceramente cheios de lágrimas.
Ainda foram eles que me ajudaram na condução do carrinho que levava o corpo do meu pai até sua campa e estranhei o quanto me fez bem vê-los ali, ajudando-me a empurrar aquele carrinho.
Constatei sogro, cunhada e duas “novas” primas que me espantaram com tamanha atenção, dedicação e carinho.
Sou extremamente grato a todos.


Sobre meu pai, não vou tentar explicar o que sinto ou o que ele foi para mim.
Se tivesse que mencioná-lo de alguma maneira, poderia citar duas palavras: amor e exemplo. Como amor, via de regra, é característica presente em todo pai verdadeiro, ficarei com a palavra exemplo, que remete a ensinamento, a aprendizado, a sabedoria.
Em sua sábia simplicidade, até com sua morte ele me deixou uma última lição (pessoal, não vou descrevê-la).

Sobre minha mãe não vou escrever: substituirei palavras por dedicação. Gostaria de retirar dela toda a dor que sente, mas não é possível porque tal sentimento tem a mesma intensidade do companheirismo que há tanto tempo os unia, e, portanto, é da mesma forma indestrutível.
Quero apenas poder estar com ela até que vá ao encontro dele...
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